Capítulo 14 – O retorno
“Certo, agora somos só nós dois.
Você vai ter que me explicar algumas coisinhas.”
Alexander sorriu tentando distrair
minha atenção, mas permaneci firme. O fato de ele ser deslumbrante não iria
livrá-lo de me dar algumas respostas.
“Tudo bem. O que você quer saber?”
“Quero saber o que significa
exatamente agir segundo o velho código.”
“Significa que por enquanto vamos só
namorar. Nada de avançar o sinal.”
“Seja mais específico.”
“Só beijos, abraços e desfrutar de
um tempo juntos...”
“O que? Nada de troca de sangue?”
“Acho que às vezes não fará mal,
depois que você for capaz de se controlar um pouco mais.”
Suspirei aliviada. Queria muito
repetir a experiência. Porém meu alívio durou pouco. Ocorreu-me outra idéia.
“Alex...”
“Sim?”
“Se vamos ficar só nos beijos e
abraços isso significa que...”
“Isso significa o que Mel?”
Ele estava se divertindo com a
situação, tinha certeza. Eu estava com tanta vergonha que não sabia como
completar o pensamento e Alexander estava adorando me ver nessa saia justa.
“Você está me deixando mais nervosa
ainda!”
“Eu? Eu não estou fazendo nada! Só
esperando você terminar de falar.”
Certo, não havia jeito. Ele não iria
me autocompletar. O jeito era falar logo de uma vez. Tomei fôlego e continuei.
“... Isso significa que nós não
vamos seguir em frente? Quer dizer que você não vai fazer amor comigo?”
Pronto, falara. Virei o rosto de
vergonha.
“Agora não.”
Senti vontade de chorar. Alexander
pegou meu rosto entre as mãos e fez com que o olhasse.
“Mel, não precisa ficar assim. Eu
disse agora não. Isso não significa que nunca irá acontecer.”
“Mas por que agora não?” Perguntei
desapontada.
“Porque você ainda não está pronta.”
Antes que pudesse retrucar ele
continuou.
“Você sabe que ainda não está
pronta. Apesar de termos certeza do que sentimos um pelo outro precisamos
passar um pouco mais de tempo juntos. Aprender a conviver. Você ainda não
conhece meus defeitos. Além disso, Sebastian também precisa de um tempo para se
acostumar com a idéia. Devemos isso a ele.”
Tudo bem. O argumento dele era
válido. Mas de quanto tempo exatamente ele estaria falando? Afinal de contas
éramos vampiros, Alex podia pensar levando em conta a eternidade. Era melhor
tirar logo a dúvida ou ela acabaria me consumindo.
“Ok. Seu argumento é razoável. Só há
um ponto que precisa ser esclarecido. De quanto tempo estamos falando?”
Alex deu mais um sorriso deslumbrante,
como se estivesse deliciado com a minha
impaciência.
“Não muito Mel. Vamos fazer a
vontade de Sebastian. Entre na faculdade primeiro.”
“E depois...”
“Depois vou manter minha promessa e
respeitá-la...”
“Mas você disse que viria comigo.”
“E irei. No entanto só seguirei em
frente quando tornarmos isso oficial.”
“Como assim tornar oficial? Eu achei
que já era.”
“Estou falando em seguirmos as
regras, Mel.”
Não estava conseguindo acompanhá-lo.
“Como assim seguir as regras?”
“Mel, ainda é cedo para discutirmos
isso.”
“Mas se não discutirmos isso não vou
ter paz.”
“Ok, não vai ter como fazer você
esperar mesmo!”
“Isso mesmo, não vou esperar!”
“Estou falando em assumirmos um
compromisso para toda a vida. Estou falando em casamento.”
Uma parte de mim se deliciou com a
idéia, mas outra ficou incrédula.
“Casamento? Desde quando isso é uma
regra hoje em dia?”
“Desde que prometi ao seu pai agir
de acordo com o velho código. Com sua reação posso entender que você não quer
se casar comigo?”
“Não!” Respondi gritando. “Mas assim
vai demorar muito mais!”
Alex me abraçou rindo.
“Não vai demorar tanto assim, Mel. Por
enquanto podemos ir treinando.”
Então ele começou a beijar meu
pescoço, dando pequenas mordidas e me causando arrepios. Em poucos instantes
estávamos deitados no sofá nos beijando e eu tinha esquecido meus protestos,
tinha esquecido que havia um mundo lá fora.
Alex me deixou em casa mais tarde
sob protestos e com a promessa de nos encontrarmos pela manhã para irmos juntos
ao sítio arqueológico. Ele acreditava que era o melhor lugar para retornar ao
mundo. Poucas pessoas e muitos vampiros. Seria mais fácil aprender a me
controlar e muitos estariam de prontidão para me ajudar.
Senti um vazio imenso quando saí do
carro e bati à porta. Alex me avisara que não poderia entrar sem ser convidada.
A ausência dele deixava tudo mais difícil. Era como se ficasse sem um pedaço de
mim.
Não demorou muito e Sebastian abriu
a porta com um sorriso.
“Entre Mel, seja bem vinda de volta
ao lar.”
Apesar de estar de mau humor não
pude deixar de lhe dar um abraço pela recepção calorosa, mas não estava com
vontade de conversar. Subi para meu quarto.
A solidão iria me sufocar, tinha
certeza. Estava em um ambiente conhecido, mas me sentia uma estranha. Tinha a
sensação de que não precisava de todas aquelas coisas. Para que iria querer uma
cama se não me sentia cansada e Alex não estava ali? Suspirei! Alex era o
verdadeiro motivo da minha depressão. Os poucos dias que passamos juntos
valeram por uma vida inteira. Queria estar com ele. Sentia-me insaciável, nunca
teria o bastante da sua companhia.
A madrugada se arrastou. Para não
enlouquecer passei um bom tempo no computador, até que cheguei ao auge da
irritação e o desliguei também. Peguei o celular repetidas vezes a fim de ligar
para Alex, só para ouvir sua voz. Desisti, não queria parecer uma maníaca
dependente.
Quando amanheceu fiquei surpresa por
não haver um buraco no chão do quarto, afinal passei grande parte da noite
andando de um lado para outro.
Precisava fazer alguma coisa. Um
banho poderia ser uma boa idéia.
A sensação da água caindo sobre a
pele era ainda melhor do que antes, mas a temperatura da mesma já não fazia
diferença. Mudei várias vezes a regulagem do chuveiro e não senti nem frio ou
calor.
Precisei me concentrar um pouco mais
na escolha das roupas. Como não sentia mais frio poderia sair sem me agasalhar,
mas provavelmente iria chamar muita atenção. Dei uma olhada no site
meteorológico e optei por um jeans grosso, um suéter verde e botas sem salto. Acabei
completando com um cachecol, só para dar um certo charme.
Fui para o espelho escovar os
cabelos e me surpreendi com a imagem refletida. Estava realmente deslumbrante.
Isso era novo para mim. Nunca tinha sido tão bonita assim.
Realmente achei que passar a noite
acordada produziria seus efeitos, mas não havia sequer uma marca em meu rosto.
A pele era perfeita, como se tivesse passado por uma sessão completa de
cuidados e maquiagem. Estava ainda mais pálida que o normal, mas isso só ressaltava
o azul de meus olhos e o escuro de meus cabelos. Meus lábios ganharam cor
misteriosamente. Agora eram levemente avermelhados e com brilho próprio. No
entanto, as mudanças mais impressionantes estavam em meu corpo. Imediatamente
entendi porque a calça e o suéter estavam tão apertados; eu havia ganhado
curvas incríveis. Provavelmente aumentara um número no manequim.
Definitivamente precisaria de roupas novas.
Estava tão absorta com minha nova
imagem que não ouvi os passos de Sebastian se aproximando e dei um pulo de
susto quando este bateu à porta.
“Mel, está tudo bem?”
Controlei a respiração antes de
responder.
“Tudo.”
“Posso entrar?”
Era melhor deixá-lo entrar antes que
pensasse que havia algo errado comigo.
“Só um minuto.”
Abandonei o espelho e corri para
abrir a porta.
“Bom dia pai.”
“Bom dia. Como passou a noite?”
Não sabia o que responder. Poderia
mentir e dizer que foi ótima ou contar a verdade e dizer que foi miserável.
Acabei optando por ficar no meio termo.
“Não muito bem. Estou sem saber o
que fazer com tanto tempo livre.”
“Eu entendo, no início é difícil se
acostumar mesmo. Se quiser conversar estarei sempre à disposição.”
“Pai, adoro conversar com você, mas
não creio que esta seja a solução.”
“Você tem razão. Posso dar uma
sugestão?”
“Claro.”
“Aproveite para estudar. Pode
terminar a escola durante a noite e se dedicar a outros afazeres durante o dia.”
“Ótima idéia! Posso aproveitar para
trabalhar no sítio.”
“Mel, não deixe sua vida girar em
torno de Alexander. Não é saudável!”
“Pai, adoro estar com ele, mas vou
tomar cuidado. O trabalho no sítio realmente me interessa. Gostaria de sair a
campo, ajudar mais, pode ser uma profissão a se considerar...”
“Eu ficaria muito feliz, mas não
quero influenciá-la. Posso fazer uma pergunta?”
“Fique a vontade.”
“O que chamou tanto sua atenção por
lá? Tirando Alexander, é claro!”
“Tirando Alexander, o que me intriga
é aquela caverna. Ela me dá arrepios, mas ao mesmo tempo me fascina! Existe
alguma coisa naquele lugar. Apenas não sei ainda se é boa ou má.”
“Intrigante esta sua sensação com o
lugar. Talvez seja bom ver como você se sai indo a campo...”
Sebastian falou isso mais para si
mesmo do que para mim.
Quando desci havia sangue em uma
garrafa térmica me esperando. Percebi que minha garganta queimava de sede. Bebi
tudo com extrema rapidez e ouvi passos se aproximando da porta de entrada. Não
sei como, mas sabia que era Alexander. Antes que ele pudesse bater corri, abri
a porta e me joguei em seus braços. Ele me afastou um pouco e sorriu.
“Hei! Que tal começarmos com um bom
dia?”
“Bom dia!” Agora sim eu estava
completa. “Agora chega de enrolação.” Abracei-o com firmeza e colei meus lábios
aos seus. Foi Alexander quem terminou o beijo.
“Também senti sua falta! Foi como se
um pedaço meu ficasse aqui.”
Entendia exatamente o que ele queria
dizer. Sebastian interrompeu o momento.
“Bom dia, Alex.”
“Bom dia, Sebastian.”
“O que tem planejado para hoje?”
“Preciso ir à caverna, mas não sei
se é a atividade adequada para a Mel.”
Sebastian pareceu gostar da idéia.
“Vocês vão ficar o tempo todo no interior?”
“É o planejado. Não há mais nada
para vermos do lado de fora.”
“Então acredito que seja uma boa
idéia. Tenho o pressentimento de que ela pode nos ajudar a encontrar o que
procuramos. Só não tire os olhos dela.”
“Pode deixar. Vou cuidar para que fique
em segurança.”
Não estava gostando da maneira como
falavam de mim.
“Hei, eu não sou mais criança, sei
me cuidar sozinha.”
Foi Alex quem respondeu.
“Tenho certeza que sim, mas você
ainda não está acostumada com sua nova condição e não sabe como agir em um
trabalho como este. Gostaria de poder ajudá-la, prometo não ser muito chato.”
Assenti com a cabeça, primeiro
porque era impossível resistir a Alexander e depois porque discutir não me
levaria a lugar algum.
Saímos de mãos dadas. O dia estava
nublado. Mesmo assim os raios ultravioletas me incomodaram, senti meus olhos
arderem.
“Mel, acho que óculos escuros podem
ser uma boa opção até você se acostumar.”
“Vou me lembrar de colocar na minha
lista de necessidades imediatas...”
“Quer dar uma paradinha para fazer
compras?”
“Fala sério, Alex! Não quero fazer
compras com você. Depois combino algo com a Natália.”
“Ela vai adorar!”
Dentro do carro era bem confortável. Os vidros especiais
impediam que o sol me incomodasse e conversar com Alex era fácil, como
respirar.
Quando percebi que não estávamos
indo para a caverna já havíamos parado diante do galpão do sítio arqueológico.
Não consegui esconder meu desapontamento.
“Pensei que íamos para a caverna.”
“E vamos, mas antes quero ver como
você se sai diante de humanos.”
Meu Deus! Agora que ele falou me
lembrei que existiam pessoas. Passar por elas dentro de um carro em movimento
era uma coisa. Chegar perto até quase poder tocar era outra completamente
diferente. O pânico passou pelos meus olhos. Alex apertou minha mão.
“Você não vai fazer nada errado,
Mel. Eu prometo.”
“Como pode ter tanta certeza?”
“Você se alimentou hoje pela manhã?”
“Sim.”
“Ficou satisfeita?”
“Não tenho certeza.”
Alex tirou uma garrafa térmica de
dentro de uma bolsa.
“Tome, só para prevenir.”
O líquido desceu pela minha garganta
aquecendo todo o meu corpo. A sensação de saciedade foi imediata.
“Agora preste atenção, Mel. Você vai
sentir vontade de atacar; são seus instintos reagindo, é normal. Mas você não
vai atacar. Você é forte o bastante para deixar a razão dominar o instinto. Se
ficar muito difícil aperte minha mão.”
“Não tenho certeza se consigo.”
Lembrei-me de como reagi com Nic.
“Você consegue. Hoje vai ser
difícil. Basta manter o foco e com o tempo ficará cada vez mais fácil...”
“Certo, vamos lá então! Só não me
deixe fazer nada do que possa me arrepender depois.”
“Pode confiar em mim, sabe disso.
Jamais deixaria que alguém a magoasse, nem mesmo você mesma.”
Aquela confiança de Alex em mim era
louvável. Gostaria de poder sentir o mesmo. Saí do carro apreensiva. Não sabia
ao certo o que esperar.
Minha
audição captou som de passos, vozes e corações batendo assim que saí do carro.
Aquilo era incrível! Quando abrimos a porta foi um choque. Era capaz de sentir
o cheiro doce de sangue vindo dos seres humanos. Também podia sentir o
delicioso perfume que emanava da pele dos vampiros. Minha boca salivou, senti
meus dentes ficarem mais pontiagudos. Alexander apertou minha mão e sussurrou
em meu ouvido.
“Você consegue. São só instintos!
Lembre-se que são pessoas. Você não está em uma caçada.”
Apertei sua mão em resposta e
comecei a respirar pausadamente buscando controlar o desejo que ardia em mim.
Era doloroso, mas aos poucos me senti no controle. Jamais poderia atacar
aquelas pessoas.
À medida que fomos avançando precisei me
apoiar mais em Alexander. Deixar que o cheiro e a textura de sua pele
distraíssem minha atenção do som das batidas dos corações, da certeza de que
aquelas veias guardavam algo inebriante. Seguimos direto para o laboratório. Ainda
não estava pronta para parar e conversar com ninguém.
O laboratório estava praticamente
vazio. A Doutora Jordan era a única que se encontrava lá e veio ao meu encontro
sorrindo.
“É bom tê-la de volta, Mel. Você
está com uma ótima aparência!”
Imediatamente seus olhos pousaram na
mão de Alexander em minha cintura e ele falou antes que a pergunta fosse feita.
“Nós estamos juntos, Hellen. Parece
que no fim não consegui agir corretamente.”
Tinha certeza que ele estava falando
isso por causa de Sebastian.
“Deixe de bobagem, meu amigo. Você,
mais do que ninguém, merece a felicidade. E olhe para este rosto, é inegável
que é isso que ela quer também. O amor não pode ser negado.”
“Você é muito gentil.”
“Bem, já que todos estamos bem é
hora de voltarmos ao trabalho. Em que posso ajudar vocês dois?”
“Preciso saber o quanto a pesquisa
avançou na minha ausência. Depois vou a campo. Mel será minha estagiária.”
“Que maravilha! É bom ver jovens
interessados na história! Mas infelizmente não conseguimos avançar muito...”
Enquanto os dois conversavam ouvi
passos muito leves se aproximarem e, em segundos, Natália passava pela porta e
me abraçava.
“Nossa! Você está linda!”
“Obrigada!”
“Como está se sentindo? Posso fazer
algo para ajudar?”
“Estou bem.”
“Sério, pode pedir! Estou a sua
disposição. Afinal somos amigas, não somos?”
“É claro que somos amigas! Mas estou
bem. Alex já está me ajudando bastante.”
Obviamente Natália não perdeu o
olhar que trocamos um com o outro, nem o carinho em minha voz.
“Ok. Podem contar. O que realmente
está acontecendo aqui?”
Achei melhor falar logo.
“Alex e eu estamos juntos, nos
apaixonamos.”
Ela me deu mais um abraço enquanto
sussurrava parabéns e depois foi cumprimentar Alex.
“É maravilhoso ver o amor nascer! Só
espero que não fiquem o tempo todo juntos. Também vou querer sua companhia.”
Consegui ler nas entrelinhas que
Natália queria saber detalhes do que havia acontecido. Também sabia que ela
estava muito feliz por ter mais uma vampira para compartilhar a vida.
“Certo, nós podemos ir às compras ao
entardecer. Estou precisando de um novo guarda-roupa. Mas agora precisamos
trabalhar.”
“Ok. Vamos então?”
“Sinto muito, Natália. Mas sou
estagiária de campo agora.”
“Já roubando minha estagiária ,Alex?”
Falou sorrindo. “Bem, divirtam-se então. Até mais tarde, Mel.”
Nem tive tempo de responder e
Natália já havia saído. Só então percebi que havia acabado de me comprometer a
ir à cidade mais tarde. Um lugar cheio de pessoas com coração batendo e sangue
correndo nas veias. Eu devia ser maluca! Mas eu continuava no mundo e precisava
seguir em frente. Era melhor encarar logo de uma vez: não poderia me esconder
para sempre.
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