domingo, 11 de dezembro de 2011

PUBLICAÇÃO SEMANAL: CAPÍTULO 14


Capítulo 14 – O retorno

            “Certo, agora somos só nós dois. Você vai ter que me explicar algumas coisinhas.”
            Alexander sorriu tentando distrair minha atenção, mas permaneci firme. O fato de ele ser deslumbrante não iria livrá-lo de me dar algumas respostas.
            “Tudo bem. O que você quer saber?”
            “Quero saber o que significa exatamente agir segundo o velho código.”
            “Significa que por enquanto vamos só namorar. Nada de avançar o sinal.”
            “Seja mais específico.”
            “Só beijos, abraços e desfrutar de um tempo juntos...”
            “O que? Nada de troca de sangue?”
            “Acho que às vezes não fará mal, depois que você for capaz de se controlar um pouco mais.”
            Suspirei aliviada. Queria muito repetir a experiência. Porém meu alívio durou pouco. Ocorreu-me outra idéia.
            “Alex...”
            “Sim?”
            “Se vamos ficar só nos beijos e abraços isso significa que...”
            “Isso significa o que Mel?”
            Ele estava se divertindo com a situação, tinha certeza. Eu estava com tanta vergonha que não sabia como completar o pensamento e Alexander estava adorando me ver nessa saia justa.
            “Você está me deixando mais nervosa ainda!”
            “Eu? Eu não estou fazendo nada! Só esperando você terminar de falar.”
            Certo, não havia jeito. Ele não iria me autocompletar. O jeito era falar logo de uma vez. Tomei fôlego e continuei.
            “... Isso significa que nós não vamos seguir em frente? Quer dizer que você não vai fazer amor comigo?”
            Pronto, falara. Virei o rosto de vergonha.
            “Agora não.”
            Senti vontade de chorar. Alexander pegou meu rosto entre as mãos e fez com que o olhasse.
            “Mel, não precisa ficar assim. Eu disse agora não. Isso não significa que nunca irá acontecer.”
            “Mas por que agora não?” Perguntei desapontada.
            “Porque você ainda não está pronta.”
            Antes que pudesse retrucar ele continuou.
            “Você sabe que ainda não está pronta. Apesar de termos certeza do que sentimos um pelo outro precisamos passar um pouco mais de tempo juntos. Aprender a conviver. Você ainda não conhece meus defeitos. Além disso, Sebastian também precisa de um tempo para se acostumar com a idéia. Devemos isso a ele.”
            Tudo bem. O argumento dele era válido. Mas de quanto tempo exatamente ele estaria falando? Afinal de contas éramos vampiros, Alex podia pensar levando em conta a eternidade. Era melhor tirar logo a dúvida ou ela acabaria me consumindo.
            “Ok. Seu argumento é razoável. Só há um ponto que precisa ser esclarecido. De quanto tempo estamos falando?”
            Alex deu mais um sorriso deslumbrante, como se estivesse  deliciado com a minha impaciência.
            “Não muito Mel. Vamos fazer a vontade de Sebastian. Entre na faculdade primeiro.”
            “E depois...”
            “Depois vou manter minha promessa e respeitá-la...”
            “Mas você disse que viria comigo.”
            “E irei. No entanto só seguirei em frente quando tornarmos isso oficial.”
            “Como assim tornar oficial? Eu achei que já era.”
            “Estou falando em seguirmos as regras, Mel.”
            Não estava conseguindo acompanhá-lo.
            “Como assim seguir as regras?”
            “Mel, ainda é cedo para discutirmos isso.”
            “Mas se não discutirmos isso não vou ter paz.”
            “Ok, não vai ter como fazer você esperar mesmo!”
            “Isso mesmo, não vou esperar!”
            “Estou falando em assumirmos um compromisso para toda a vida. Estou falando em casamento.”
            Uma parte de mim se deliciou com a idéia, mas outra ficou incrédula.
            “Casamento? Desde quando isso é uma regra hoje em dia?”
            “Desde que prometi ao seu pai agir de acordo com o velho código. Com sua reação posso entender que você não quer se casar comigo?”
            “Não!” Respondi gritando. “Mas assim vai demorar muito mais!”
            Alex me abraçou rindo.
            “Não vai demorar tanto assim, Mel. Por enquanto podemos ir treinando.”
            Então ele começou a beijar meu pescoço, dando pequenas mordidas e me causando arrepios. Em poucos instantes estávamos deitados no sofá nos beijando e eu tinha esquecido meus protestos, tinha esquecido que havia um mundo lá fora.
            Alex me deixou em casa mais tarde sob protestos e com a promessa de nos encontrarmos pela manhã para irmos juntos ao sítio arqueológico. Ele acreditava que era o melhor lugar para retornar ao mundo. Poucas pessoas e muitos vampiros. Seria mais fácil aprender a me controlar e muitos estariam de prontidão para me ajudar.
            Senti um vazio imenso quando saí do carro e bati à porta. Alex me avisara que não poderia entrar sem ser convidada. A ausência dele deixava tudo mais difícil. Era como se ficasse sem um pedaço de mim.
            Não demorou muito e Sebastian abriu a porta com um sorriso.
            “Entre Mel, seja bem vinda de volta ao lar.”
            Apesar de estar de mau humor não pude deixar de lhe dar um abraço pela recepção calorosa, mas não estava com vontade de conversar. Subi para meu quarto.
            A solidão iria me sufocar, tinha certeza. Estava em um ambiente conhecido, mas me sentia uma estranha. Tinha a sensação de que não precisava de todas aquelas coisas. Para que iria querer uma cama se não me sentia cansada e Alex não estava ali? Suspirei! Alex era o verdadeiro motivo da minha depressão. Os poucos dias que passamos juntos valeram por uma vida inteira. Queria estar com ele. Sentia-me insaciável, nunca teria o bastante da sua companhia.
            A madrugada se arrastou. Para não enlouquecer passei um bom tempo no computador, até que cheguei ao auge da irritação e o desliguei também. Peguei o celular repetidas vezes a fim de ligar para Alex, só para ouvir sua voz. Desisti, não queria parecer uma maníaca dependente.
            Quando amanheceu fiquei surpresa por não haver um buraco no chão do quarto, afinal passei grande parte da noite andando de um lado para outro.
            Precisava fazer alguma coisa. Um banho poderia ser uma boa idéia.
            A sensação da água caindo sobre a pele era ainda melhor do que antes, mas a temperatura da mesma já não fazia diferença. Mudei várias vezes a regulagem do chuveiro e não senti nem frio ou calor.
            Precisei me concentrar um pouco mais na escolha das roupas. Como não sentia mais frio poderia sair sem me agasalhar, mas provavelmente iria chamar muita atenção. Dei uma olhada no site meteorológico e optei por um jeans grosso, um suéter verde e botas sem salto. Acabei completando com um cachecol, só para dar um certo charme.
            Fui para o espelho escovar os cabelos e me surpreendi com a imagem refletida. Estava realmente deslumbrante. Isso era novo para mim. Nunca tinha sido tão bonita assim.
            Realmente achei que passar a noite acordada produziria seus efeitos, mas não havia sequer uma marca em meu rosto. A pele era perfeita, como se tivesse passado por uma sessão completa de cuidados e maquiagem. Estava ainda mais pálida que o normal, mas isso só ressaltava o azul de meus olhos e o escuro de meus cabelos. Meus lábios ganharam cor misteriosamente. Agora eram levemente avermelhados e com brilho próprio. No entanto, as mudanças mais impressionantes estavam em meu corpo. Imediatamente entendi porque a calça e o suéter estavam tão apertados; eu havia ganhado curvas incríveis. Provavelmente aumentara um número no manequim. Definitivamente precisaria de roupas novas.
            Estava tão absorta com minha nova imagem que não ouvi os passos de Sebastian se aproximando e dei um pulo de susto quando este bateu à porta.
            “Mel, está tudo bem?”
            Controlei a respiração antes de responder.
            “Tudo.”
            “Posso entrar?”
            Era melhor deixá-lo entrar antes que pensasse que havia algo errado comigo.
            “Só um minuto.”
            Abandonei o espelho e corri para abrir a porta.
            “Bom dia pai.”
            “Bom dia. Como passou a noite?”
            Não sabia o que responder. Poderia mentir e dizer que foi ótima ou contar a verdade e dizer que foi miserável. Acabei optando por ficar no meio termo.
            “Não muito bem. Estou sem saber o que fazer com tanto tempo livre.”
            “Eu entendo, no início é difícil se acostumar mesmo. Se quiser conversar estarei sempre à disposição.”
            “Pai, adoro conversar com você, mas não creio que esta seja a solução.”
            “Você tem razão. Posso dar uma sugestão?”
            “Claro.”
            “Aproveite para estudar. Pode terminar a escola durante a noite e se dedicar a outros afazeres durante o dia.”
            “Ótima idéia! Posso aproveitar para trabalhar no sítio.”
            “Mel, não deixe sua vida girar em torno de Alexander. Não é saudável!”
            “Pai, adoro estar com ele, mas vou tomar cuidado. O trabalho no sítio realmente me interessa. Gostaria de sair a campo, ajudar mais, pode ser uma profissão a se considerar...”
            “Eu ficaria muito feliz, mas não quero influenciá-la. Posso fazer uma pergunta?”
            “Fique a vontade.”
            “O que chamou tanto sua atenção por lá? Tirando Alexander, é claro!”
            “Tirando Alexander, o que me intriga é aquela caverna. Ela me dá arrepios, mas ao mesmo tempo me fascina! Existe alguma coisa naquele lugar. Apenas não sei ainda se é boa ou má.”
            “Intrigante esta sua sensação com o lugar. Talvez seja bom ver como você se sai indo a campo...”
            Sebastian falou isso mais para si mesmo do que para mim.
            Quando desci havia sangue em uma garrafa térmica me esperando. Percebi que minha garganta queimava de sede. Bebi tudo com extrema rapidez e ouvi passos se aproximando da porta de entrada. Não sei como, mas sabia que era Alexander. Antes que ele pudesse bater corri, abri a porta e me joguei em seus braços. Ele me afastou um pouco e sorriu.
            “Hei! Que tal começarmos com um bom dia?”
            “Bom dia!” Agora sim eu estava completa. “Agora chega de enrolação.” Abracei-o com firmeza e colei meus lábios aos seus. Foi Alexander quem terminou o beijo.
            “Também senti sua falta! Foi como se um pedaço meu ficasse aqui.”
            Entendia exatamente o que ele queria dizer. Sebastian interrompeu o momento.
            “Bom dia, Alex.”
            “Bom dia, Sebastian.”
            “O que tem planejado para hoje?”
            “Preciso ir à caverna, mas não sei se é a atividade adequada para a Mel.”
            Sebastian pareceu gostar da idéia.
            “Vocês vão ficar o tempo todo no interior?”
            “É o planejado. Não há mais nada para vermos do lado de fora.”
            “Então acredito que seja uma boa idéia. Tenho o pressentimento de que ela pode nos ajudar a encontrar o que procuramos. Só não tire os olhos dela.”
            “Pode deixar. Vou cuidar para que fique em segurança.”
            Não estava gostando da maneira como falavam de mim.
            “Hei, eu não sou mais criança, sei me cuidar sozinha.”
            Foi Alex quem respondeu.
            “Tenho certeza que sim, mas você ainda não está acostumada com sua nova condição e não sabe como agir em um trabalho como este. Gostaria de poder ajudá-la, prometo não ser muito chato.”
            Assenti com a cabeça, primeiro porque era impossível resistir a Alexander e depois porque discutir não me levaria a lugar algum.
            Saímos de mãos dadas. O dia estava nublado. Mesmo assim os raios ultravioletas me incomodaram, senti meus olhos arderem.
            “Mel, acho que óculos escuros podem ser uma boa opção até você se acostumar.”
            “Vou me lembrar de colocar na minha lista de necessidades imediatas...”
            “Quer dar uma paradinha para fazer compras?”
            “Fala sério, Alex! Não quero fazer compras com você. Depois combino algo com a Natália.”
            “Ela vai adorar!”
            Dentro do carro era bem confortável. Os vidros especiais impediam que o sol me incomodasse e conversar com Alex era fácil, como respirar.
            Quando percebi que não estávamos indo para a caverna já havíamos parado diante do galpão do sítio arqueológico. Não consegui esconder meu desapontamento.
            “Pensei que íamos para a caverna.”
            “E vamos, mas antes quero ver como você se sai diante de humanos.”
            Meu Deus! Agora que ele falou me lembrei que existiam pessoas. Passar por elas dentro de um carro em movimento era uma coisa. Chegar perto até quase poder tocar era outra completamente diferente. O pânico passou pelos meus olhos. Alex apertou minha mão.
            “Você não vai fazer nada errado, Mel. Eu prometo.”
            “Como pode ter tanta certeza?”
            “Você se alimentou hoje pela manhã?”
            “Sim.”
            “Ficou satisfeita?”
            “Não tenho certeza.”
            Alex tirou uma garrafa térmica de dentro de uma bolsa.
            “Tome, só para prevenir.”
            O líquido desceu pela minha garganta aquecendo todo o meu corpo. A sensação de saciedade foi imediata.
            “Agora preste atenção, Mel. Você vai sentir vontade de atacar; são seus instintos reagindo, é normal. Mas você não vai atacar. Você é forte o bastante para deixar a razão dominar o instinto. Se ficar muito difícil aperte minha mão.”
            “Não tenho certeza se consigo.” Lembrei-me de como reagi com Nic.
            “Você consegue. Hoje vai ser difícil. Basta manter o foco e com o tempo ficará cada vez mais fácil...”
            “Certo, vamos lá então! Só não me deixe fazer nada do que possa me arrepender depois.”
            “Pode confiar em mim, sabe disso. Jamais deixaria que alguém a magoasse, nem mesmo você mesma.”
            Aquela confiança de Alex em mim era louvável. Gostaria de poder sentir o mesmo. Saí do carro apreensiva. Não sabia ao certo o que esperar.
            Minha audição captou som de passos, vozes e corações batendo assim que saí do carro. Aquilo era incrível! Quando abrimos a porta foi um choque. Era capaz de sentir o cheiro doce de sangue vindo dos seres humanos. Também podia sentir o delicioso perfume que emanava da pele dos vampiros. Minha boca salivou, senti meus dentes ficarem mais pontiagudos. Alexander apertou minha mão e sussurrou em meu ouvido.
            “Você consegue. São só instintos! Lembre-se que são pessoas. Você não está em uma caçada.”
            Apertei sua mão em resposta e comecei a respirar pausadamente buscando controlar o desejo que ardia em mim. Era doloroso, mas aos poucos me senti no controle. Jamais poderia atacar aquelas pessoas.
             À medida que fomos avançando precisei me apoiar mais em Alexander. Deixar que o cheiro e a textura de sua pele distraíssem minha atenção do som das batidas dos corações, da certeza de que aquelas veias guardavam algo inebriante. Seguimos direto para o laboratório. Ainda não estava pronta para parar e conversar com ninguém.
            O laboratório estava praticamente vazio. A Doutora Jordan era a única que se encontrava lá e veio ao meu encontro sorrindo.
            “É bom tê-la de volta, Mel. Você está com uma ótima aparência!”
            Imediatamente seus olhos pousaram na mão de Alexander em minha cintura e ele falou antes que a pergunta fosse feita.
            “Nós estamos juntos, Hellen. Parece que no fim não consegui agir corretamente.”
            Tinha certeza que ele estava falando isso por causa de Sebastian.
            “Deixe de bobagem, meu amigo. Você, mais do que ninguém, merece a felicidade. E olhe para este rosto, é inegável que é isso que ela quer também. O amor não pode ser negado.”
            “Você é muito gentil.”
            “Bem, já que todos estamos bem é hora de voltarmos ao trabalho. Em que posso ajudar vocês dois?”
            “Preciso saber o quanto a pesquisa avançou na minha ausência. Depois vou a campo. Mel será minha estagiária.”
            “Que maravilha! É bom ver jovens interessados na história! Mas infelizmente não conseguimos avançar muito...”
            Enquanto os dois conversavam ouvi passos muito leves se aproximarem e, em segundos, Natália passava pela porta e me abraçava.
            “Nossa! Você está linda!”
            “Obrigada!”
            “Como está se sentindo? Posso fazer algo para ajudar?”
            “Estou bem.”
            “Sério, pode pedir! Estou a sua disposição. Afinal somos amigas, não somos?”
            “É claro que somos amigas! Mas estou bem. Alex já está me ajudando bastante.”
            Obviamente Natália não perdeu o olhar que trocamos um com o outro, nem o carinho em minha voz.
            “Ok. Podem contar. O que realmente está acontecendo aqui?”
            Achei melhor falar logo.
            “Alex e eu estamos juntos, nos apaixonamos.”
            Ela me deu mais um abraço enquanto sussurrava parabéns e depois foi cumprimentar Alex.
            “É maravilhoso ver o amor nascer! Só espero que não fiquem o tempo todo juntos. Também vou querer sua companhia.”
            Consegui ler nas entrelinhas que Natália queria saber detalhes do que havia acontecido. Também sabia que ela estava muito feliz por ter mais uma vampira para compartilhar a vida.
            “Certo, nós podemos ir às compras ao entardecer. Estou precisando de um novo guarda-roupa. Mas agora precisamos trabalhar.”
            “Ok. Vamos então?”
            “Sinto muito, Natália. Mas sou estagiária de campo agora.”
            “Já roubando minha estagiária ,Alex?” Falou sorrindo. “Bem, divirtam-se então. Até mais tarde, Mel.”
            Nem tive tempo de responder e Natália já havia saído. Só então percebi que havia acabado de me comprometer a ir à cidade mais tarde. Um lugar cheio de pessoas com coração batendo e sangue correndo nas veias. Eu devia ser maluca! Mas eu continuava no mundo e precisava seguir em frente. Era melhor encarar logo de uma vez: não poderia me esconder para sempre.

Um comentário: