Capítulo 17 – Sangue puro
O serviço de demolição era muito
minucioso. Não bastava força, precisávamos de delicadeza a fim de não causar
danos ao que estava atrás da parede. Depois de meio dia de serviço conseguimos
finalmente abrir uma passagem que se abria para outro beco sem saída.
Estava muito escuro, mas logo nossos olhos se
adaptaram e fomos capazes de enxergar tudo com perfeição. As paredes estavam
cobertas de símbolos esculpidos em baixo relevo. Era muito úmido e o ar estava
parado, cheirando a séculos de isolamento, mas definitivamente não era o que
procurávamos.
Sebastian foi o primeiro a se
pronunciar.
“Parece que encontramos mais uma
peça do quebra-cabeça.”
Então suspirou desapontado.
“É uma pena! Pensei que estávamos
chegando ao final.”
Entendia o desapontamento que podia
ver no rosto de cada um, mas não conseguia sentir a mesma coisa. O silêncio e o
vazio me davam medo, como se algo estivesse nos esperando.
Comecei a caminhar para a parede
oposta ao lugar onde estávamos e acabei tropeçando em algo, soltei um grito de
susto e logo Alex estava ao meu lado.
“Tudo bem, Mel?”
“Tudo. Foi só um tropeção.”
“Bem, então vamos ver o que temos
aí.”
Ao nos abaixarmos vimos que se
tratava de um círculo que se assemelhava a um enorme lacre. Quando nos
preparávamos para tocá-lo Natália gritou:
“Esperem!”
Ficamos imediatamente paralisados
aguardando uma explicação. Ela se aproximou mais andando ao redor do círculo.
“Existem inscrições aqui que
precisam ser traduzidas.”
Sebastian foi o primeiro a falar:
“Você conhece a língua?”
“É a mesma do selo, mas preciso de
um pouco de luz, certos pontos precisam ser analisados com cuidado.”
Agora foi a vez de Alex.
“Espere só um minuto.”
Então saiu correndo e logo após
retornou com uma grande lanterna nas mãos.
“Isto serve?”
“Será perfeito.”
Enquanto Natália trabalhava e Alex
segurava a lanterna decidi olhar as paredes. Estavam repletas de desenhos, com
pessoas vestindo capas, encurralando monstros. Era assustador. Minha
concentração era tamanha que dei um pulo de susto quando Natália falou.
“Certo, já posso dizer o que está
escrito.”
Então parou fazendo um suspense, mas
vendo a impaciência em cada face decidiu seguir em frente.
“Consegui traduzir em linhas gerais,
alguns termos são meio obscuros. Vamos lá então:
Chegará o dia em que a mais pura da espécie surgirá.
Ela
libertará o mal e aumentará seu poder.
O
mundo sofrerá, inocentes pagarão.
Mas
eis que uma força maior fará o bem prevalecer.”
Fui a primeira a perguntar:
“O que isso quer dizer exatamente?”
Enquanto esperava a resposta de
Natália estremeci ao lembrar-me da alucinação, ela falava em sangue puro.
“É uma profecia, mas não precisa ser
interpretada ao pé da letra. Provavelmente estavam só externando seus medos. Os
povos antigos eram muito supersticiosos.”
Tentei permanecer impassível diante
da profecia, mas não conseguia parar de pensar nas semelhanças entre o que
aconteceu de madrugada e o que estava escrito ali. Para ajudar, as pinturas na
parede pareciam muito com a figura que eu achava ter visto.
Alex acabou por me arrancar de meus
pensamentos.
“Bem, acredito que agora já podemos
tentar remover este lacre.”
Todos concordaram com a cabeça. Nos
posicionamos e o arrastamos com cuidado a fim de não danificá-lo. Em seu lugar
surgiu um buraco profundo. Não conseguíamos ver o seu fim.
Um ar fétido e acre agredia
violentamente nosso olfato. Estremeci só de imaginar que precisaríamos descer
por ali. Alex percebeu meu desconforto e segurou minha mão enquanto falava:
“Acredito que não temos outra
alternativa além de descer...”
Sebastian concordou imediatamente.
“Você está certo, não chegamos até
aqui para desistir.”
“Mas não precisamos descer todos de
uma vez.”
“Certo, eu vou na frente para sondar
o terreno.”
“Você acha seguro descer sozinho?
Posso ir junto.”
Não estava gostando daquela
conversa, eles estavam literalmente deixando a mim e Natália de fora.
“Hei! Esperem aí! Eu e Natália
trabalhamos duro para chegar até aqui, também queremos ir.”
“A Mel está certa.”
Alex segurou meus ombros e olhou em
meus olhos enquanto falava.
“Mel, seja razoável. Não sabemos
sequer a profundidade deste buraco. É mais seguro que vocês esperem aqui.”
“Com isso você está admitindo que
pode ser perigoso? Porque se for isso então pode ter certeza que eu vou. Não
vou deixar que desçam sozinhos, vocês podem precisar de ajuda.”
“Você já considerou que, caso
precisemos de ajuda, vocês podem ser mais úteis daqui de cima?”
“Se é assim, então vamos nós dois.
Sebastian pode ser de mais ajuda do que eu.”
Meu pai decidiu entrar na discussão.
“Você não vai, Mel. Eu sou seu pai e
chefe dessa pesquisa, a decisão final cabe a mim.”
Dei um suspiro de resignação. Pelo
seu tom de voz sabia que não haveria espaço para argumentação. Ele faria
qualquer coisa para me deixar em segurança.
Foi meu pai quem tentou descer
primeiro. Vimos algo muito estranho acontecer. Ele simplesmente ficou em pé no
espaço vazio onde outrora estivera o círculo, não conseguia descer. Era como se
o chão ainda estivesse debaixo de seus pés. Totalmente surpreso, ficou ali
parado enquanto olhávamos boquiabertos.
“É como se eu pudesse flutuar. Não
sinto nada sob meus pés, mas não consigo descer.”
Natália e Alex também tentaram e
obtiveram o mesmo resultado.
Enquanto discutiam sobre o assunto
pude ouvir o sussurro novamente.
“Melissa, estamos esperando!”
Tentei permanecer o mais normal
possível, não queria ter que revelar a todos minha loucura. Então continuei
escutando uma voz rouca e fraca, que parecia estar em agonia.
“Tão perto! Você está tão perto,
Melissa!”
Isso se repetiu por três vezes e
então o silêncio voltou e eu pude relaxar um pouco.
Não queria me aproximar muito do
buraco, mas sentia necessidade de contato com Alex então fui me achegando e
peguei sua mão. Aquilo me reconfortou.
Ninguém sabia o que fazer. Era algo
completamente diferente do que todos conheciam. A conversa passou a girar em
torno de suposições. Como não tinha formação suficiente para acompanhar o
raciocínio acabei me perdendo e deixando apenas que meu corpo se aproximasse
mais de Alexander e aproveitasse o contato.
Não estava preparada para o que aconteceria.
Foi o grito mais horrendo que já havia ouvido.
“VENHA, MELISSAAAA!!!”
O susto fez com que pulasse para
trás, bem em cima do buraco. Comecei a cair sem ter tempo de processar o que
estava acontecendo. Continuava a ouvir as vozes, agora exultantes.
“Ela conseguiu! O sangue puro
quebrou a magia!”
Não sei por quanto tempo caí, mas quando
cheguei ao chão permaneci de olhos fechados, não queria ver o que estava ao meu
redor. Pude ouvir a voz de Alexander e entrei em pânico. Sabia que agora todos poderiam
descer, mas não o queria ali comigo, era perigoso.
“Eu estou bem!”
“Tem certeza? Vou tentar descer.”
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