sábado, 17 de dezembro de 2011

PUBLICAÇÃO SEMANAL: CAPÍTULO 15


Capítulo 15 – O chamado

            Antes de sairmos a campo Alex precisou participar de uma reunião com a equipe interna. Como minha presença não era necessária decidi esperar no laboratório.
            Eu estava sem ocupação. O tempo parecia se arrastar e comecei a ficar impaciente. Decidi dar uma volta.
            Só quando estava do lado de fora do laboratório percebi a besteira que estava fazendo. Podia sentir o cheiro de sangue no ar, o calor do corpo das pessoas que ali trabalhavam. Como poderia resistir a isso? Infelizmente era tarde demais para voltar atrás. Catalina vinha em minha direção. Fiquei parada sem mover um músculo, sem ousar respirar. Será que eu era forte o bastante para passar por isto? Em instantes descobriria.
            “Mel?” Catalina se aproximou percebendo claramente as mudanças em meu corpo.
            “Oi.”
            “Nossa! O que aconteceu com você?”
            “Como assim? Fiquei doente, mas já estou bem.”
            “Mas você não se parece com alguém que esteve doente. Parece mais com uma super modelo!”
            “Você não acha que está exagerando? Confesso que o tratamento intensivo e algumas vitaminas me fizeram muito bem, mas ainda sou a mesma...”
            “Uau! Preciso de um tratamento desses.”
            “Espero sinceramente que nunca precise.”
            Disse isso mais para mim mesma. Gostava de Catalina e não desejava que mais ninguém tivesse que passar por uma experiência tão bizarra.
            “Foi tão ruim assim?”
            “Adoecer nunca é bom.”
            Catalina parou para pensar por alguns segundos. Enquanto isso, me concentrei nas batidas de seu coração. Por alguns instantes pude me imaginar correndo atrás dela, dominando-a, vendo seu rosto coberto de medo no momento em que meus dentes se aproximavam de seu pescoço. Repeli o pensamento com fúria, eu desejava que aquilo acontecesse. Eu era um monstro?
            “Mel, onde você esteve esse tempo todo? Ligamos para sua casa, mas ninguém atendeu.”
            “Passei umas horas em observação aqui na ala médica e depois fui para a casa de Alexander. O clima lá é melhor.”
            “Alexander? Um dos pesquisadores principais? Aquele deus? Você ficou na casa dele? Só vocês dois?”
            “Fiquei. Por que?”
            “Porque ele é simplesmente maravilhoso e inacessível. Nunca ouvi ninguém falar que esteve na casa dele.”
            “Não tem nada demais.”
            “Ok, mesmo assim quero saber detalhes. Vamos fazer um lanche enquanto você me conta tudo.”
            Não seria uma boa idéia sair fingindo que estava lanchando com Catalina, ainda não estava preparada para isso. Sem falar que resistir a uma pessoa era uma coisa, mas não sabia quantas mais encontraríamos.
            “Acho melhor não.”
            “Por que não? Natália já te sobrecarregou de trabalho?”
            “Não estou mais trabalhando com Natália. Preciso ficar perto do laboratório, quando terminar a reunião de Alex vou com ele para a caverna.”
            Catalina ficou me olhando incrédula.
            “Espera aí! Agora você não me escapa. Alex? Desde quando alguém o chama assim além dos pesquisadores mais importantes? E vai trabalhar com ele na caverna? O que está acontecendo?”
            Ela falava muito rápido, despejando as perguntas uma atrás da outra. Eu não fazia a menor idéia de como responder, por fim decidi pela verdade, ao menos a parte que era possível contar.
            “Olha Catalina, Alex e eu estamos saindo...”
            Ela nem me deixou acabar de falar.
            “Vocês estão saindo? Desde quando? Se me lembro bem vocês mal se falavam! Ele deve ser incrível, não? Pobre Nic, vai ficar desolado. Ele estava a fim de você sabia?”
            Eu já desconfiava... Mas rejeitei as evidências para não ter que lidar com o problema.
            “Digamos que quando fiquei doente algo despertou em nós.”
            “Que incrível! Mas é sério? Vocês estão namorando ou só ficando?”
            Não podia revelar a intensidade do que estava acontecendo, isso a assustaria ou passaria meu atestado de loucura.
            “Acho que estamos namorando, mas não é nada sério. Está só naquela fase inicial sabe?”
            “Seu pai já sabe?”
            “Acredite, não dá para esconder nada de Sebastian.”
            “Como ele reagiu?”
            “Não ficou muito feliz, mas também não proibiu.”
            “Já é um começo. Precisamos sair para conversarmos mais! Quero saber detalhes. Que tal hoje à noite?”
            “Hum! Hoje marquei de fazer compras com a Natália. Que tal amanhã no final do dia? Vou dar uma passada aqui antes de ir embora para conversarmos.”
            Sabia que não conseguiria me livrar dela sem responder algumas perguntas, mas também não queria ficar muito tempo longe de Alexander. Além do mais, isso me daria um dia para pensar o que contaria, perguntar a Alex o que poderia contar.
            “Ok. Vejo você amanhã.”
            Catalina foi embora e eu voltei para o laboratório. Precisava aprender a contar boas mentiras, afinal teria que parecer normal para o resto do mundo. Nic estava me preocupando um pouco pois não sabia como ele reagiria ao meu namoro com Alex.
            Enquanto pensava em tudo que acontecera ouvi passos se aproximando. Pude sentir o perfume de Alexander, isso me fez esquecer de todo resto. Ele entrou no laboratório seguido de uma equipe de técnicos. Deu-me seu melhor sorriso, se aproximou e segurou minha mão. Seu toque tinha o poder de apagar todas as preocupações.
            “Acho que acabei por aqui, Mel. Vamos?”
            Apenas assenti com cabeça, ansiosa para começar a trabalhar.
            Já dentro do carro decidi ser um pouco mais profissional.
            “O que exatamente eu vou fazer? Como posso ajudar?”
            “Como você não conhece o trabalho de campo é melhor que fique comigo apenas observando por enquanto. Posso pedir que ajude em algumas coisas, mas sempre vou explicar os procedimentos corretos para você.”
            “O que está sendo feito lá exatamente?”
            “Até o momento não tivemos muitos progressos. Natália está tentando traduzir os escritos da parede, mas é uma linguagem totalmente desconhecida, não se encaixa em nenhum padrão que conheçamos.”
            “Então não houve muitos avanços desde que fiquei presa lá?”
            “Não. Encontramos alguns artefatos de valor histórico, mas que nada acrescentam em nossa pesquisa real. Precisamos que Natália nos diga o que está escrito naquela parede para prosseguirmos.”
            “E se os escritos não forem tão importantes assim? Se houver mais atrás daquela parede?”
            Não sei por que disse aquilo; foi um impulso incontrolável.
            “Talvez seja algo a ser considerado se continuarmos parados por muito tempo.”
             A conversa acabou quando estacionamos em frente ao castelo. Para chegarmos à caverna, teríamos que seguir a pé. Dei um gemido de insatisfação, sabia o quanto os raios ultravioletas eram desconfortáveis.
            Antes que pudesse sair, Alex pegou uma caixa no porta luvas e me entregou.
            “Tome, são meus óculos de sol. Não vai ficar muito elegante, mas ao menos oferecerá algum conforto.”
            “Obrigada.”
            Coloquei os óculos que ficaram grandes para o meu rosto e antes que pudesse reclamar que estava ridícula com eles Alex me deu um beijo de tirar o fôlego.
            “Você está tentadora. Vamos antes que eu desista e leve você para minha casa.”
            Adoraria ficar sozinha com ele... Mas estava decidida a agir de forma profissional! Sebastian não poderia me acusar de abandonar minhas responsabilidades. Tinha que provar a ele que sabia separar as coisas. Respirei fundo para me controlar e saí do carro seguindo Alex.
            Mesmo com os óculos a claridade do dia era desconfortável. Andamos o mais rápido possível sem levantar suspeitas e logo estávamos no interior da caverna.
            O sentimento de pavor que me tomou da última vez que estivera ali voltou com força. Era como se algo muito ruim estivesse encerrado naquelas paredes. Era um sentimento diferente. Nunca fora muito dada a acreditar em intuição, paranormalidade, ocultismo ou seja lá o nome que as pessoas costumavam dar a isso. Mesmo assim, algo em mim insistia em dizer para me afastar. Decidi ignorar e seguir em frente.
            Alex conferiu alguns trabalhos que estavam sendo feitos e depois seguimos direto para a parede onde ficavam os escritos misteriosos. Fixei meus olhos nos símbolos. Não conhecia nenhum, é claro. Gostaria de saber com que espécie de tinta foram gravados, era bem diferente de tudo que vira.
            “Alex, vocês já descobriram com que espécie de tinta esses escritos foram gravados?”
            “Ainda não. Uma amostra foi enviada para o laboratório, mas ainda está em análise. No entanto posso assegurar que não se parece com nada que eu já tenha visto. Por que?”
            “Só curiosidade.”
            Continuei olhando fixamente para os símbolos e, talvez devido a falta de luminosidade, meus olhos pareciam estar me pregando uma peça. Os símbolos começaram e se embaralhar, trocar de lugar e, de repente, formaram algo parecido com um selo, por alguma razão sabia que era importante registrar o que estava vendo. Não era boa desenhista, mas faria o possível.
            “Alex, preciso de papel e lápis com urgência.”
            Ele não discutiu comigo, apenas fez o que pedi.
            Milagrosamente consegui reproduzir exatamente o que estava vendo: um conjunto de símbolos que formavam caracteres totalmente incomuns aos que já conhecera delimitados por um círculo, como um selo. Entreguei o desenho para um Alex espantado a me fitar.
            “De onde você tirou isto?”
            “Estava na parede, você não viu?”
            “Mel, a parede continua exatamente a mesma, nada mudou.”
            Olhei para me certificar e percebi que era verdade, o selo não estava lá.
            “Alex, eu não estou louca, os símbolos dessa parede se modificaram ha alguns minutos atrás; eu vi! Foi este selo que apareceu.”
            “Acredito em você. Mas como sabe que isto é um selo?”
            “Eu apenas sei. É muito estranho. E pode acreditar: o que diz aí é muito importante!”
            “Você não está enlouquecendo, Mel. Já vi muitas coisas estranhas acontecerem. Vou enviar este desenho para Natália e pedir que tenha prioridade.”
            Então ele saiu me deixando aliviada por saber que não estava ficando maluca. Por que coisas fora do comum insistiam em acontecer comigo nos últimos tempos?
            Ficar sozinha naquele lugar era arrepiante. Ainda mais quando as paredes pareciam me chamar, quando pareciam querer que eu as tocasse. Finalmente não consegui resistir ao apelo e levantei minha mão esquerda.
            Senti um arrepio percorrer meu corpo. A parede era muito fria e úmida. Consegui sentir desespero e dor vindo dela, como se ali estivesse encerrado um grande sofrimento. Aos poucos pude perceber tal sentimento se converter em raiva. Como se algo clamasse por vingança. Fiquei com medo diante da perversidade ali encerrada.
            Tentei me afastar, mas meu corpo se aproximou ainda mais. Encostei meu rosto na superfície gelada e pude ouvir um sussurro. Imediatamente saltei para trás. Impossível! Não havia nada vivo naquele lugar há séculos! Eu devia estar imaginando coisas.
            A curiosidade foi maior do que o medo. Encostei meu ouvido novamente à parede rochosa tentando descobrir o que estava acontecendo. Pude ouvir claramente o sussurro agora.
            “Melissa!... Estávamos esperando por você! Precisamos de você. Melissa, Melissa.”
            Saí correndo daquele lugar sem olhar para trás. O que afinal estava acontecendo comigo?
            Na fuga acabei trombando com Alexander, que me segurou em um abraço.
            “Hei! O que está acontecendo? Do que você está fugindo?”
            Olhei para ele envergonhada antes de começar a falar. O que ele pensaria de mim quando soubesse?
            “Alex, ou eu estou realmente ficando louca ou tem algo atrás daquela parede que sabe meu nome...”
            “Mel, acalme-se e me conte exatamente o que aconteceu. Confie em mim, você não está louca.”
            Contei a ele exatamente o que havia ocorrido. Alex permanecia em silêncio apenas escutando.
            “É possível que você realmente tenha ouvido algo. Essa caverna é muito antiga. Pode conter segredos ainda desconhecidos. Não sei explicar exatamente o que está acontecendo. Talvez o selo nos dê alguma pista. Mas estou convencido de que existe algo atrás daquela parede. Só gostaria de saber qual é a sua ligação com isso tudo...”
            “Eu também gostaria. Nunca sequer estive na Romênia. Como posso estar ligada a algo encontrado aqui?”
            “Você nunca esteve na Romênia, mas é uma vampira e estamos procurando pelos que deram origem a nossa raça. Pode haver alguma ligação aí, pode ser uma herança de sangue...”
            “Será que Sebastian tem algum antepassado entre os primeiros?”
            “Todos nós temos, Mel. Mas em você deve haver algo especial...”
            “Podemos derrubar a parede?”
            “É preciso ir com cautela. Seria melhor decifrar o selo primeiro.”
            Suspirei de alívio. Alex percebeu e comentou.
            “Pensei que estivesse curiosa para descobrir o que está lá atrás.”
            “E estou. Mas confesso que também estou com medo. Não sei o motivo, mas posso sentir algo ruim nesta caverna. Ela me dá arrepios!”
            “Provavelmente é porque lugares antigos guardam suas próprias memórias. Não sabemos dizer que tipo de atrocidades podem ter acontecido aqui, seitas antigas costumavam praticar rituais macabros...”
            “É... Você deve ter razão.”
            Assim demos o assunto por encerrado e prosseguimos vasculhando o local sem encontrar mais nenhuma novidade. Não paramos para almoçar. Não precisávamos disso. Mas no final da tarde comecei a sentir minha garganta arder de sede e achei que era hora de dar o sinal vermelho, afinal havia humanos no local.
            “Alex, acho que preciso ir embora. Estou faminta.”
            Ele entendeu a mensagem e deu o expediente por encerrado e fomos para o carro.
            “Você quer agora ou consegue esperar até chegarmos em casa?”
            Sabia que ali teríamos sangue frio e a idéia não me agradou.
            “Consigo esperar.”
            Alex sorriu e deu partida no carro.
            Dei uma rápida olhada para a trilha e vi o vento balançar as folhas, ouvi novamente um sussurro.
            “Melissa, estamos esperando você. Venha nos libertar!”

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