sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

PUBLICAÇÃO SEMANAL: CAPÍTULO 17


Capítulo 17 – Sangue puro

            O serviço de demolição era muito minucioso. Não bastava força, precisávamos de delicadeza a fim de não causar danos ao que estava atrás da parede. Depois de meio dia de serviço conseguimos finalmente abrir uma passagem que se abria para outro beco sem saída.
             Estava muito escuro, mas logo nossos olhos se adaptaram e fomos capazes de enxergar tudo com perfeição. As paredes estavam cobertas de símbolos esculpidos em baixo relevo. Era muito úmido e o ar estava parado, cheirando a séculos de isolamento, mas definitivamente não era o que procurávamos.
            Sebastian foi o primeiro a se pronunciar.
            “Parece que encontramos mais uma peça do quebra-cabeça.”
            Então suspirou desapontado.
            “É uma pena! Pensei que estávamos chegando ao final.”
            Entendia o desapontamento que podia ver no rosto de cada um, mas não conseguia sentir a mesma coisa. O silêncio e o vazio me davam medo, como se algo estivesse nos esperando.
            Comecei a caminhar para a parede oposta ao lugar onde estávamos e acabei tropeçando em algo, soltei um grito de susto e logo Alex estava ao meu lado.
            “Tudo bem, Mel?”
            “Tudo. Foi só um tropeção.”
            “Bem, então vamos ver o que temos aí.”
            Ao nos abaixarmos vimos que se tratava de um círculo que se assemelhava a um enorme lacre. Quando nos preparávamos para tocá-lo Natália gritou:
            “Esperem!”
            Ficamos imediatamente paralisados aguardando uma explicação. Ela se aproximou mais andando ao redor do círculo.
            “Existem inscrições aqui que precisam ser traduzidas.”
            Sebastian foi o primeiro a falar:
            “Você conhece a língua?”
            “É a mesma do selo, mas preciso de um pouco de luz, certos pontos precisam ser analisados com cuidado.”
            Agora foi a vez de Alex.
            “Espere só um minuto.”
            Então saiu correndo e logo após retornou com uma grande lanterna nas mãos.
            “Isto serve?”
            “Será perfeito.”
            Enquanto Natália trabalhava e Alex segurava a lanterna decidi olhar as paredes. Estavam repletas de desenhos, com pessoas vestindo capas, encurralando monstros. Era assustador. Minha concentração era tamanha que dei um pulo de susto quando Natália falou.
            “Certo, já posso dizer o que está escrito.”
            Então parou fazendo um suspense, mas vendo a impaciência em cada face decidiu seguir em frente.
            “Consegui traduzir em linhas gerais, alguns termos são meio obscuros. Vamos lá então:
            Chegará o dia em que a mais pura da espécie surgirá.
         Ela libertará o mal e aumentará seu poder.
         O mundo sofrerá, inocentes pagarão.
         Mas eis que uma força maior fará o bem prevalecer.”
            Fui a primeira a perguntar:
            “O que isso quer dizer exatamente?”
            Enquanto esperava a resposta de Natália estremeci ao lembrar-me da alucinação, ela falava em sangue puro.
            “É uma profecia, mas não precisa ser interpretada ao pé da letra. Provavelmente estavam só externando seus medos. Os povos antigos eram muito supersticiosos.”
            Tentei permanecer impassível diante da profecia, mas não conseguia parar de pensar nas semelhanças entre o que aconteceu de madrugada e o que estava escrito ali. Para ajudar, as pinturas na parede pareciam muito com a figura que eu achava ter visto.
            Alex acabou por me arrancar de meus pensamentos.
            “Bem, acredito que agora já podemos tentar remover este lacre.”
            Todos concordaram com a cabeça. Nos posicionamos e o arrastamos com cuidado a fim de não danificá-lo. Em seu lugar surgiu um buraco profundo. Não conseguíamos ver o seu fim.
            Um ar fétido e acre agredia violentamente nosso olfato. Estremeci só de imaginar que precisaríamos descer por ali. Alex percebeu meu desconforto e segurou minha mão enquanto falava:
            “Acredito que não temos outra alternativa além de descer...”
            Sebastian concordou imediatamente.
            “Você está certo, não chegamos até aqui para desistir.”
            “Mas não precisamos descer todos de uma vez.”
            “Certo, eu vou na frente para sondar o terreno.”
            “Você acha seguro descer sozinho? Posso ir junto.”
            Não estava gostando daquela conversa, eles estavam literalmente deixando a mim e Natália de fora.
            “Hei! Esperem aí! Eu e Natália trabalhamos duro para chegar até aqui, também queremos ir.”
            “A Mel está certa.”
            Alex segurou meus ombros e olhou em meus olhos enquanto falava.
            “Mel, seja razoável. Não sabemos sequer a profundidade deste buraco. É mais seguro que vocês esperem aqui.”
            “Com isso você está admitindo que pode ser perigoso? Porque se for isso então pode ter certeza que eu vou. Não vou deixar que desçam sozinhos, vocês podem precisar de ajuda.”
            “Você já considerou que, caso precisemos de ajuda, vocês podem ser mais úteis daqui de cima?”
            “Se é assim, então vamos nós dois. Sebastian pode ser de mais ajuda do que eu.”
            Meu pai decidiu entrar na discussão.
            “Você não vai, Mel. Eu sou seu pai e chefe dessa pesquisa, a decisão final cabe a mim.”
            Dei um suspiro de resignação. Pelo seu tom de voz sabia que não haveria espaço para argumentação. Ele faria qualquer coisa para me deixar em segurança.
            Foi meu pai quem tentou descer primeiro. Vimos algo muito estranho acontecer. Ele simplesmente ficou em pé no espaço vazio onde outrora estivera o círculo, não conseguia descer. Era como se o chão ainda estivesse debaixo de seus pés. Totalmente surpreso, ficou ali parado enquanto olhávamos boquiabertos.
            “É como se eu pudesse flutuar. Não sinto nada sob meus pés, mas não consigo descer.”
            Natália e Alex também tentaram e obtiveram o mesmo resultado.
            Enquanto discutiam sobre o assunto pude ouvir o sussurro novamente.
            “Melissa, estamos esperando!”
            Tentei permanecer o mais normal possível, não queria ter que revelar a todos minha loucura. Então continuei escutando uma voz rouca e fraca, que parecia estar em agonia.
            “Tão perto! Você está tão perto, Melissa!”
            Isso se repetiu por três vezes e então o silêncio voltou e eu pude relaxar um pouco.
            Não queria me aproximar muito do buraco, mas sentia necessidade de contato com Alex então fui me achegando e peguei sua mão. Aquilo me reconfortou.
            Ninguém sabia o que fazer. Era algo completamente diferente do que todos conheciam. A conversa passou a girar em torno de suposições. Como não tinha formação suficiente para acompanhar o raciocínio acabei me perdendo e deixando apenas que meu corpo se aproximasse mais de Alexander e aproveitasse o contato.
            Não estava preparada para o que aconteceria. Foi o grito mais horrendo que já havia ouvido.
            “VENHA, MELISSAAAA!!!”
            O susto fez com que pulasse para trás, bem em cima do buraco. Comecei a cair sem ter tempo de processar o que estava acontecendo. Continuava a ouvir as vozes, agora exultantes.
            “Ela conseguiu! O sangue puro quebrou a magia!”
            Não sei por quanto tempo caí, mas quando cheguei ao chão permaneci de olhos fechados, não queria ver o que estava ao meu redor. Pude ouvir a voz de Alexander e entrei em pânico. Sabia que agora todos poderiam descer, mas não o queria ali comigo, era perigoso.
            “Eu estou bem!”
            “Tem certeza? Vou tentar descer.”

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