Capítulo 16 – O selo
Estar na sala de Alex era um alívio.
O sentimento de pavor desaparecera, apesar do sussurro não querer abandonar
meus pensamentos. Nem mesmo o sabor do sangue quente descendo pela minha
garganta conseguiu apagar minhas memórias.
“Alex?”
“Pode falar, Mel.”
“Por que será que estou ouvindo
estes sussurros? Estou ficando assustada...”
Alex se aproximou e me abraçou.
“Não tenho explicação para o que
está acontecendo, mas acredito que em breve descobriremos. Você não precisa
ficar assustada, estarei sempre ao seu lado.”
Esta promessa era reconfortante. Mesmo
assim estava inquieta.
“Sei que você não deixaria nada de
ruim me acontecer, mas aquele sussurro é arrepiante.”
“Então vou ter que ajudá-la a
esquecer.”
Nem cheguei a responder, pois Alex
começou a beijar minha boca e eu me agarrei a ele com urgência.
Quando dei por mim já estávamos deitados no
sofá e Alex acariciava meu rosto, descia com as mãos pelo meu pescoço e colo e
depois traçava o mesmo caminho com os lábios.
Estava
ficando fora de mim. Queria poder colar meu corpo ao seu sem barreiras. Coloquei
as mãos por baixo de sua camisa para poder sentir sua pele, seus músculos e
estava prestes a tentar tirar o tecido que me impedia de ter mais contato
quando o celular dele tocou.
Enquanto
Alex atendia tentei me recompor sem conseguir esconder a expressão de
frustração. Ele percebeu meu estado de espírito e sentou ao meu lado enquanto
acariciava minhas costas. Consegui prestar atenção apenas ao final da conversa.
“Não
saia daí que já estamos indo.”
Assim
que ele desligou não contive minha curiosidade.
“Quem
era? Onde exatamente estamos indo?”
“Era
Natália. Ela conseguiu decifrar o selo.”
Percebi
uma excitação diferente em sua voz e pude entender. Também fiquei excitada com
a notícia, talvez estivéssemos prestes a ter acesso a algo desconhecido pela
humanidade.
O
carro de Alexander parecia voar pela estrada, não tive coragem de olhar o velocímetro;
preferia não ver o que ele estava marcando. Logo estávamos entrando na sala de
Natália.
Meu
pai já estava lá. Parece que todos estavam trabalhando muito além do horário
normal. Foi ele quem iniciou a conversa.
“Que
bom que vocês conseguiram chegar rápido. Achei desnecessário convocar o
restante da equipe, então seremos só nós. Natália, por favor, pode começar.”
“Não
tive tempo de preparar uma apresentação, mas acredito que vocês serão capazes
de me acompanhar. Mel, qualquer dúvida é só perguntar.”
Assenti
com a cabeça, talvez aquilo fosse avançado demais para mim. Mesmo assim queria
ouvir, estava extremamente curiosa.
“O
selo estava codificado, por isto demorei tanto para identificar a linguagem, é
grego antigo, nada muito complicado. Não posso precisar a data em que foi
escrito, apesar da linguagem usada ser a dos primeiros Dácios, pode ter sido
feito em qualquer época do império por conhecedores das tradições.”
Ficamos
com a respiração suspensa, aguardando a grande revelação.
“Bem,
vamos ao que interessa. O texto parece um aviso. Escutem e julguem por si
mesmos.”
O que os deuses aqui selaram, aqui deve
permanecer
Se o sangue puro se aproximar a
escuridão prevalecerá
Afastem-se aqueles que buscam o poder
Aqui estes encontrarão a morte.
Fez-se
um pequeno silêncio. Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo. Aquele texto
me pareceu um mau agouro. Alexander decidiu se pronunciar:
“Certamente
é um aviso, mas não podemos levá-lo ao pé da letra.”
Sebastian
concordou.
“É
óbvio que não. Este selo nos deu certeza de que há algo atrás daquela parede.
Precisamos descobrir o que é.”
Natália
também estava empolgadíssima.
“Pode
ser o que temos procurado. Estes avisos sempre aparecem em tumbas antigas,
cheios de maldições infundadas.”
Queria
poder dizer que precisavam levar este selo mais a sério, considerar o que ele
estava dizendo, mas não pude. Baseada em que contestaria três especialistas? No
meu sexto sentido? Era melhor ficar calada.
Alex
segurou minha mão e retomou a palavra.
“Ótimo,
então amanhã vamos remover aquela parede.”
Todos
concordaram, eu me mantive em silêncio. Estava tão preocupada que me assustei
quando meu pai se dirigiu a mim.
“É
melhor ir para casa então, Mel. O dia será exaustivo.”
Resolvi
não discutir. Ele sabia perfeitamente que éramos capazes de agüentar esse ritmo
de trabalho sem problemas. Estava claro que só queria me mandar para casa de
forma educada.
“Tudo
bem, mas Alex vai me levar.”
Pegamos
a estrada e rapidamente chegamos em minha casa. Não queria entrar, precisava
contar a Alex meus temores.
“Alex,
preciso confessar uma coisa...”
Ele
não se pronunciou, apenas ficou me olhando repleto de carinho, isto me
encorajou.
“Não
estou segura quanto aquele aviso. Talvez devêssemos ir devagar.”
“O
que exatamente está incomodando você?”
“Primeiro
os sussurros, eles me dão medo. Depois, tenho a sensação de que realmente há
algo ruim ali. Não sei se deveríamos trazer isso ao mundo.”
“Mel,
meu amor, provavelmente há um poder milenar encerrado naquele lugar, mas já
está preso ali há muito tempo. É algo que não pode nos fazer mal.”
“Como
você pode ter tanta certeza?”
“Se
forem mesmo nossos antepassados, provavelmente estão mortos. Foram caçados e
exterminados, daí o aviso, quem os colocou ali sabia o que eram.”
“Mas
não temos certeza do que realmente está atrás daquela parede. O que quer que
seja sabe o meu nome.”
“Nunca
saberemos se não derrubarmos a parede. Os povos eram cheios de superstições. As
tumbas egípcias sempre continham avisos e maldições desse tipo. Quanto aos
sussurros, realmente não sei explicar, mas é possível que consigamos uma
resposta lá dentro.”
Ele
tinha razão, mesmo assim estava com medo e Alex percebeu isso. Abraçando,
beijou-me demoradamente.
“Mel,
você tem total liberdade de escolher não estar na caverna quando a parede for
derrubada.”
Por
alguns segundos esta idéia me agradou, depois pensei em deixar Alexander
sozinho naquele lugar e senti um grande pavor. Apertei mais o nosso abraço.
“Estarei
lá, Alex.”
“Então
tente descansar um pouco. Gostaria de fazer algo para ajudá-la a relaxar...”
Seus
lábios começaram a descer pelo meu pescoço enquanto suas mãos acariciavam meus
quadris.Eu me senti amolecer.
“...Mas
infelizmente não posso. Sebastian está esperando por você.”
Seu
sorriso era arrebatador. Parecia se divertir com o poder que exercia sobre mim.
Olhei para ele reclamando.
“Assim
não vale! Você provoca e depois sai correndo...”
“Paciência,
Mel! Paciência! Tudo ao seu tempo...”
Achei
melhor não discutir. Apenas saí batendo a porta do carro e deixando Alex rindo
atrás de mim. Paciência! Odiava ouvir aquela palavra!
Meu
pai estava sentado em uma poltrona na sala, nem se deu ao trabalho de disfarçar
que estava ocupado com alguma coisa. Apenas me recebeu e depois se retirou para
o quarto. Isto me deixou ainda mais nervosa. Meu namorado se recusava a transar
comigo, meu pai estava bancando o super protetor e eu estava ouvindo vozes. Estava
ficando difícil lidar com isso tudo.
Precisava
relaxar, tentar encontrar um ponto de equilíbrio antes que explodisse. Gostaria
que minha mãe estivesse aqui, só para poder desabafar.
Não
podia ficar ali lamentando pelo que não tinha. Entrei no quarto e acabei
decidindo que um banho quente poderia clarear meus pensamentos. Mas hoje queria
algo mais do que uma ducha rápida. Assim, coloquei a hidromassagem para encher
e procurei no banheiro por sais de banho.
Quando
a água quente tocou meu corpo soube que tinha tomado a decisão certa. Aos
poucos fui sentindo meus músculos se descontraírem e minha irritação foi dando
lugar a uma deliciosa letargia. Todo o dia foi ficando para trás. Não queria
mais pensar em nada, apenas sentir.
Não
sei dizer ao certo o que aconteceu. Tenho certeza de que não dormi, mas o
cenário ao meu redor foi se modificando. Aos poucos a fumaça do banheiro ficou
densa, tanto que não conseguia enxergar mais nada ao meu redor. Depois foi se
dissipando e eu não estava mais na banheira e sim no alto de uma montanha,
usando apenas um fino vestido de seda enquanto o vento balançava meus cabelos.
Vi
alguém se aproximando, mas não senti medo. Não sabia se era homem ou mulher. Usava
uma capa que lhe encobria as formas e o rosto. Quando parou à minha frente vi
que era uma mulher, a mais linda que já vira na vida, com olhos violeta e a
pele aveludada, estava tomada por uma luz tranqüilizadora.
“Que
bom tê-la aqui, Mel.”
Ela
sabia o meu nome, mas isso não pareceu estranho. Aliás, nada ali parecia estranho. Era como se tudo
fosse como deveria ser.
Apenas
sorri em reposta.
“Você
sabe que aquela parede não pode ser derrubada, não sabe?”
“Sei,
mas não tenho como impedir.”
“É
claro que não. Entretanto precisa saber que lá existe um grande perigo. Precisa
tomar cuidado com seu sangue, não pode deixar sangue puro se aproximar do que
está encerrado ali.”
“Como
assim? Sangue puro? De quem?”
“O
seu, Mel.”
“Meu
sangue não pode ser puro. Você sabe quem eu sou? Sabe no que me transformei?”
“Toda
linhagem encerra pureza e força. Seu sangue carrega esta pureza e o de Alex
carrega a força. Cuidado! Vocês dois precisam tomar cuidado! A herança que
carregam no sangue pode não só salvar, mas também destruir. Não desconsidere o
aviso que há no selo!”
Enquanto
pensava o que havia escutado a mulher desapareceu e eu estava novamente na
banheira, sem entender nada. Agora eu estava tendo alucinações, só podia ser.
Antes de ficar histérica senti minha garganta queimar, estava com fome. Então
era isso: fiquei muito tempo sem me alimentar, passei por acontecimentos
stressantes e comecei a imaginar coisas. Era melhor me alimentar antes que isso
piorasse.
Fui
para a cozinha, peguei uma garrafa de inox no freezer, despejei em uma caneca e
coloquei no microondas. O líquido vermelho desceu aliviando minha garganta e espalhando
calor por minhas veias. Era uma sensação maravilhosa! Só perdia para os beijos
de Alexander.
Pensar
em Alex fez com que me lembrasse daquela alucinação esquisita. Sabia que havia
algo de errado naquela caverna, mas entrar em transe e receber um aviso sabe-se
lá de quem já era loucura. Além do mais aquilo tudo não fazia sentido. Podia
ter muitas coisas, mas certamente meu sangue não era puro. Estava impressionada
com o aviso contido no selo.
As
horas custaram a passar. Mantive-me ocupada conectada à internet, buscando
notícias dos amigos que deixei no Brasil e respondendo os inúmeros emails de
tia Sônia, os quais vinha evitando até então.
Logo
que o sol começou a nascer abri a porta do armário para decidir o que vestir.
Hoje
presenciaria uma demolição. Pensando nas implicações práticas deste tipo de
evento escolhi um jeans preto, tênis bem confortáveis e uma blusa de gola alta
verde musgo. Prendi os cabelos em um rabo de cavalo e olhei no espelho para
verificar o resultado. Estava muito bonita, isso me deixou feliz, ultimamente
me preocupava com a forma que era vista por Alex.
Ouvi
um carro se aproximar e sabia que era Alexander. Desci correndo as escadas. Já
estava abrindo a porta antes mesmo que ele houvesse acabado de estacionar.
Joguei-me
em seus braços antes que tivesse chance de dizer alguma coisa e o beijei como
se não nos víssemos há tempos. Sebastian nos interrompeu com um pigarro. Sem a
menor vergonha me virei e ainda segurando a mão de Alex o conduzi para dentro
de casa.
Depois
de tomar uma garrafa de sangue bem quente entramos no carro e nos dirigimos
para a caverna. Sebastian seguiu logo atrás, também queria estar presente
quando a parede fosse derrubada. Natália também estaria lá caso precisassem de
seus conhecimentos. O restante da equipe aguardaria no laboratório pronta para
começar a analisar o material coletado.
Quando
estacionamos no Castelo Alex abriu a porta do carro para mim e estendeu a mão.
Sabia que ele estava tentando me apoiar depois que revelei a ele meu desconforto.
Seguimos
pela trilha controlando a velocidade. Precisávamos parecer normais. Quando
chegamos, parei à porta da caverna. Tudo ali estava silencioso, até o vento,
tão forte por ali, estava parado, como se a natureza soubesse que algo estava
para acontecer.
Sacudi
a cabeça. Estava deixando minha imaginação ir longe demais, daqui a pouco
estaria alucinando de novo. Já tinha sido difícil esconder de Alex o que havia
acontecido durante a madrugada, não era muito boa em omitir as coisas. Se
entrasse em transe agora teria que revelar toda minha loucura. Definitivamente
este não era o momento ideal para deixar todos preocupados com minha sanidade.
Alex
percebeu minha hesitação e apertou meus ombros.
“Pronta?
Tem certeza de que quer entrar aqui?”
Por
alguma razão desconhecida a simples possibilidade de deixar Alexander sozinho
naquela caverna me apavorava.
“Eu
vou entrar.”
Entramos e nos juntamos a Sebastian e Natália
a fim de iniciarmos os preparativos para derrubar a parede. Só nós
trabalharíamos hoje.
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