domingo, 25 de dezembro de 2011

PUBLICAÇÃO SEMANAL: CAPÍTULO 16


Capítulo 16 – O selo

            Estar na sala de Alex era um alívio. O sentimento de pavor desaparecera, apesar do sussurro não querer abandonar meus pensamentos. Nem mesmo o sabor do sangue quente descendo pela minha garganta conseguiu apagar minhas memórias.
            “Alex?”
            “Pode falar, Mel.”
            “Por que será que estou ouvindo estes sussurros? Estou ficando assustada...”
            Alex se aproximou e me abraçou.
            “Não tenho explicação para o que está acontecendo, mas acredito que em breve descobriremos. Você não precisa ficar assustada, estarei sempre ao seu lado.”
            Esta promessa era reconfortante. Mesmo assim estava inquieta.
            “Sei que você não deixaria nada de ruim me acontecer, mas aquele sussurro é arrepiante.”
            “Então vou ter que ajudá-la a esquecer.”
            Nem cheguei a responder, pois Alex começou a beijar minha boca e eu me agarrei a ele com urgência.
 Quando dei por mim já estávamos deitados no sofá e Alex acariciava meu rosto, descia com as mãos pelo meu pescoço e colo e depois traçava o mesmo caminho com os lábios.
Estava ficando fora de mim. Queria poder colar meu corpo ao seu sem barreiras. Coloquei as mãos por baixo de sua camisa para poder sentir sua pele, seus músculos e estava prestes a tentar tirar o tecido que me impedia de ter mais contato quando o celular dele tocou.
Enquanto Alex atendia tentei me recompor sem conseguir esconder a expressão de frustração. Ele percebeu meu estado de espírito e sentou ao meu lado enquanto acariciava minhas costas. Consegui prestar atenção apenas ao final da conversa.
“Não saia daí que já estamos indo.”
Assim que ele desligou não contive minha curiosidade.
“Quem era? Onde exatamente estamos indo?”
“Era Natália. Ela conseguiu decifrar o selo.”
Percebi uma excitação diferente em sua voz e pude entender. Também fiquei excitada com a notícia, talvez estivéssemos prestes a ter acesso a algo desconhecido pela humanidade.
O carro de Alexander parecia voar pela estrada, não tive coragem de olhar o velocímetro; preferia não ver o que ele estava marcando. Logo estávamos entrando na sala de Natália.
Meu pai já estava lá. Parece que todos estavam trabalhando muito além do horário normal. Foi ele quem iniciou a conversa.
“Que bom que vocês conseguiram chegar rápido. Achei desnecessário convocar o restante da equipe, então seremos só nós. Natália, por favor, pode começar.”
“Não tive tempo de preparar uma apresentação, mas acredito que vocês serão capazes de me acompanhar. Mel, qualquer dúvida é só perguntar.”
Assenti com a cabeça, talvez aquilo fosse avançado demais para mim. Mesmo assim queria ouvir, estava extremamente curiosa.
“O selo estava codificado, por isto demorei tanto para identificar a linguagem, é grego antigo, nada muito complicado. Não posso precisar a data em que foi escrito, apesar da linguagem usada ser a dos primeiros Dácios, pode ter sido feito em qualquer época do império por conhecedores das tradições.”
Ficamos com a respiração suspensa, aguardando a grande revelação.
“Bem, vamos ao que interessa. O texto parece um aviso. Escutem e julguem por si mesmos.”
O que os deuses aqui selaram, aqui deve permanecer
Se o sangue puro se aproximar a escuridão prevalecerá
Afastem-se aqueles que buscam o poder
Aqui estes encontrarão a morte.
Fez-se um pequeno silêncio. Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo. Aquele texto me pareceu um mau agouro. Alexander decidiu se pronunciar:
“Certamente é um aviso, mas não podemos levá-lo ao pé da letra.”
Sebastian concordou.
“É óbvio que não. Este selo nos deu certeza de que há algo atrás daquela parede. Precisamos descobrir o que é.”
Natália também estava empolgadíssima.
“Pode ser o que temos procurado. Estes avisos sempre aparecem em tumbas antigas, cheios de maldições infundadas.”
Queria poder dizer que precisavam levar este selo mais a sério, considerar o que ele estava dizendo, mas não pude. Baseada em que contestaria três especialistas? No meu sexto sentido? Era melhor ficar calada.
Alex segurou minha mão e retomou a palavra.
“Ótimo, então amanhã vamos remover aquela parede.”
Todos concordaram, eu me mantive em silêncio. Estava tão preocupada que me assustei quando meu pai se dirigiu a mim.
“É melhor ir para casa então, Mel. O dia será exaustivo.”
Resolvi não discutir. Ele sabia perfeitamente que éramos capazes de agüentar esse ritmo de trabalho sem problemas. Estava claro que só queria me mandar para casa de forma educada.
“Tudo bem, mas Alex vai me levar.”
Pegamos a estrada e rapidamente chegamos em minha casa. Não queria entrar, precisava contar a Alex meus temores.
“Alex, preciso confessar uma coisa...”
Ele não se pronunciou, apenas ficou me olhando repleto de carinho, isto me encorajou.
“Não estou segura quanto aquele aviso. Talvez devêssemos ir devagar.”
“O que exatamente está incomodando você?”
“Primeiro os sussurros, eles me dão medo. Depois, tenho a sensação de que realmente há algo ruim ali. Não sei se deveríamos trazer isso ao mundo.”
“Mel, meu amor, provavelmente há um poder milenar encerrado naquele lugar, mas já está preso ali há muito tempo. É algo que não pode nos fazer mal.”
“Como você pode ter tanta certeza?”
“Se forem mesmo nossos antepassados, provavelmente estão mortos. Foram caçados e exterminados, daí o aviso, quem os colocou ali sabia o que eram.”
“Mas não temos certeza do que realmente está atrás daquela parede. O que quer que seja sabe o meu nome.”
“Nunca saberemos se não derrubarmos a parede. Os povos eram cheios de superstições. As tumbas egípcias sempre continham avisos e maldições desse tipo. Quanto aos sussurros, realmente não sei explicar, mas é possível que consigamos uma resposta lá dentro.”
Ele tinha razão, mesmo assim estava com medo e Alex percebeu isso. Abraçando, beijou-me demoradamente.
“Mel, você tem total liberdade de escolher não estar na caverna quando a parede for derrubada.”
Por alguns segundos esta idéia me agradou, depois pensei em deixar Alexander sozinho naquele lugar e senti um grande pavor. Apertei mais o nosso abraço.
“Estarei lá, Alex.”
“Então tente descansar um pouco. Gostaria de fazer algo para ajudá-la a relaxar...”
Seus lábios começaram a descer pelo meu pescoço enquanto suas mãos acariciavam meus quadris.Eu me senti amolecer.
“...Mas infelizmente não posso. Sebastian está esperando por você.”
Seu sorriso era arrebatador. Parecia se divertir com o poder que exercia sobre mim. Olhei para ele reclamando.
“Assim não vale! Você provoca e depois sai correndo...”
“Paciência, Mel! Paciência! Tudo ao seu tempo...”
Achei melhor não discutir. Apenas saí batendo a porta do carro e deixando Alex rindo atrás de mim. Paciência! Odiava ouvir aquela palavra!
Meu pai estava sentado em uma poltrona na sala, nem se deu ao trabalho de disfarçar que estava ocupado com alguma coisa. Apenas me recebeu e depois se retirou para o quarto. Isto me deixou ainda mais nervosa. Meu namorado se recusava a transar comigo, meu pai estava bancando o super protetor e eu estava ouvindo vozes. Estava ficando difícil lidar com isso tudo.
Precisava relaxar, tentar encontrar um ponto de equilíbrio antes que explodisse. Gostaria que minha mãe estivesse aqui, só para poder desabafar.
Não podia ficar ali lamentando pelo que não tinha. Entrei no quarto e acabei decidindo que um banho quente poderia clarear meus pensamentos. Mas hoje queria algo mais do que uma ducha rápida. Assim, coloquei a hidromassagem para encher e procurei no banheiro por sais de banho.
Quando a água quente tocou meu corpo soube que tinha tomado a decisão certa. Aos poucos fui sentindo meus músculos se descontraírem e minha irritação foi dando lugar a uma deliciosa letargia. Todo o dia foi ficando para trás. Não queria mais pensar em nada, apenas sentir.
Não sei dizer ao certo o que aconteceu. Tenho certeza de que não dormi, mas o cenário ao meu redor foi se modificando. Aos poucos a fumaça do banheiro ficou densa, tanto que não conseguia enxergar mais nada ao meu redor. Depois foi se dissipando e eu não estava mais na banheira e sim no alto de uma montanha, usando apenas um fino vestido de seda enquanto o vento balançava meus cabelos.
Vi alguém se aproximando, mas não senti medo. Não sabia se era homem ou mulher. Usava uma capa que lhe encobria as formas e o rosto. Quando parou à minha frente vi que era uma mulher, a mais linda que já vira na vida, com olhos violeta e a pele aveludada, estava tomada por uma luz tranqüilizadora.
“Que bom tê-la aqui, Mel.”
Ela sabia o meu nome, mas isso não pareceu estranho. Aliás,  nada ali parecia estranho. Era como se tudo fosse como deveria ser.
Apenas sorri em reposta.
“Você sabe que aquela parede não pode ser derrubada, não sabe?”
“Sei, mas não tenho como impedir.”
“É claro que não. Entretanto precisa saber que lá existe um grande perigo. Precisa tomar cuidado com seu sangue, não pode deixar sangue puro se aproximar do que está encerrado ali.”
“Como assim? Sangue puro? De quem?”
“O seu, Mel.”
“Meu sangue não pode ser puro. Você sabe quem eu sou? Sabe no que me transformei?”
“Toda linhagem encerra pureza e força. Seu sangue carrega esta pureza e o de Alex carrega a força. Cuidado! Vocês dois precisam tomar cuidado! A herança que carregam no sangue pode não só salvar, mas também destruir. Não desconsidere o aviso que há no selo!”
Enquanto pensava o que havia escutado a mulher desapareceu e eu estava novamente na banheira, sem entender nada. Agora eu estava tendo alucinações, só podia ser. Antes de ficar histérica senti minha garganta queimar, estava com fome. Então era isso: fiquei muito tempo sem me alimentar, passei por acontecimentos stressantes e comecei a imaginar coisas. Era melhor me alimentar antes que isso piorasse.
Fui para a cozinha, peguei uma garrafa de inox no freezer, despejei em uma caneca e coloquei no microondas. O líquido vermelho desceu aliviando minha garganta e espalhando calor por minhas veias. Era uma sensação maravilhosa! Só perdia para os beijos de Alexander.
Pensar em Alex fez com que me lembrasse daquela alucinação esquisita. Sabia que havia algo de errado naquela caverna, mas entrar em transe e receber um aviso sabe-se lá de quem já era loucura. Além do mais aquilo tudo não fazia sentido. Podia ter muitas coisas, mas certamente meu sangue não era puro. Estava impressionada com o aviso contido no selo.
As horas custaram a passar. Mantive-me ocupada conectada à internet, buscando notícias dos amigos que deixei no Brasil e respondendo os inúmeros emails de tia Sônia, os quais vinha evitando até então.
Logo que o sol começou a nascer abri a porta do armário para decidir o que vestir.
Hoje presenciaria uma demolição. Pensando nas implicações práticas deste tipo de evento escolhi um jeans preto, tênis bem confortáveis e uma blusa de gola alta verde musgo. Prendi os cabelos em um rabo de cavalo e olhei no espelho para verificar o resultado. Estava muito bonita, isso me deixou feliz, ultimamente me preocupava com a forma que era vista por Alex.
Ouvi um carro se aproximar e sabia que era Alexander. Desci correndo as escadas. Já estava abrindo a porta antes mesmo que ele houvesse acabado de estacionar.
Joguei-me em seus braços antes que tivesse chance de dizer alguma coisa e o beijei como se não nos víssemos há tempos. Sebastian nos interrompeu com um pigarro. Sem a menor vergonha me virei e ainda segurando a mão de Alex o conduzi para dentro de casa.
Depois de tomar uma garrafa de sangue bem quente entramos no carro e nos dirigimos para a caverna. Sebastian seguiu logo atrás, também queria estar presente quando a parede fosse derrubada. Natália também estaria lá caso precisassem de seus conhecimentos. O restante da equipe aguardaria no laboratório pronta para começar a analisar o material coletado.
Quando estacionamos no Castelo Alex abriu a porta do carro para mim e estendeu a mão. Sabia que ele estava tentando me apoiar depois que revelei a ele meu desconforto.
Seguimos pela trilha controlando a velocidade. Precisávamos parecer normais. Quando chegamos, parei à porta da caverna. Tudo ali estava silencioso, até o vento, tão forte por ali, estava parado, como se a natureza soubesse que algo estava para acontecer.
Sacudi a cabeça. Estava deixando minha imaginação ir longe demais, daqui a pouco estaria alucinando de novo. Já tinha sido difícil esconder de Alex o que havia acontecido durante a madrugada, não era muito boa em omitir as coisas. Se entrasse em transe agora teria que revelar toda minha loucura. Definitivamente este não era o momento ideal para deixar todos preocupados com minha sanidade.
Alex percebeu minha hesitação e apertou meus ombros.
“Pronta? Tem certeza de que quer entrar aqui?”
Por alguma razão desconhecida a simples possibilidade de deixar Alexander sozinho naquela caverna me apavorava.
“Eu vou entrar.”
 Entramos e nos juntamos a Sebastian e Natália a fim de iniciarmos os preparativos para derrubar a parede. Só nós trabalharíamos hoje.

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