Capítulo 15 – O chamado
Antes de sairmos a campo Alex
precisou participar de uma reunião com a equipe interna. Como minha presença
não era necessária decidi esperar no laboratório.
Eu estava sem ocupação. O tempo
parecia se arrastar e comecei a ficar impaciente. Decidi dar uma volta.
Só quando estava do lado de fora do
laboratório percebi a besteira que estava fazendo. Podia sentir o cheiro de
sangue no ar, o calor do corpo das pessoas que ali trabalhavam. Como poderia
resistir a isso? Infelizmente era tarde demais para voltar atrás. Catalina vinha
em minha direção. Fiquei parada sem mover um músculo, sem ousar respirar. Será
que eu era forte o bastante para passar por isto? Em instantes descobriria.
“Mel?” Catalina se aproximou
percebendo claramente as mudanças em meu corpo.
“Oi.”
“Nossa! O que aconteceu com você?”
“Como assim? Fiquei doente, mas já
estou bem.”
“Mas você não se parece com alguém
que esteve doente. Parece mais com uma super modelo!”
“Você não acha que está exagerando?
Confesso que o tratamento intensivo e algumas vitaminas me fizeram muito bem,
mas ainda sou a mesma...”
“Uau! Preciso de um tratamento
desses.”
“Espero sinceramente que nunca
precise.”
Disse isso mais para mim mesma.
Gostava de Catalina e não desejava que mais ninguém tivesse que passar por uma
experiência tão bizarra.
“Foi tão ruim assim?”
“Adoecer nunca é bom.”
Catalina parou para pensar por
alguns segundos. Enquanto isso, me concentrei nas batidas de seu coração. Por
alguns instantes pude me imaginar correndo atrás dela, dominando-a, vendo seu
rosto coberto de medo no momento em que meus dentes se aproximavam de seu
pescoço. Repeli o pensamento com fúria, eu desejava que aquilo acontecesse. Eu
era um monstro?
“Mel, onde você esteve esse tempo
todo? Ligamos para sua casa, mas ninguém atendeu.”
“Passei umas horas em observação
aqui na ala médica e depois fui para a casa de Alexander. O clima lá é melhor.”
“Alexander? Um dos pesquisadores
principais? Aquele deus? Você ficou na casa dele? Só vocês dois?”
“Fiquei. Por que?”
“Porque ele é simplesmente
maravilhoso e inacessível. Nunca ouvi ninguém falar que esteve na casa dele.”
“Não tem nada demais.”
“Ok, mesmo assim quero saber
detalhes. Vamos fazer um lanche enquanto você me conta tudo.”
Não seria uma boa idéia sair
fingindo que estava lanchando com Catalina, ainda não estava preparada para
isso. Sem falar que resistir a uma pessoa era uma coisa, mas não sabia quantas
mais encontraríamos.
“Acho melhor não.”
“Por que não? Natália já te
sobrecarregou de trabalho?”
“Não estou mais trabalhando com
Natália. Preciso ficar perto do laboratório, quando terminar a reunião de Alex
vou com ele para a caverna.”
Catalina ficou me olhando incrédula.
“Espera aí! Agora você não me
escapa. Alex? Desde quando alguém o chama assim além dos pesquisadores mais
importantes? E vai trabalhar com ele na caverna? O que está acontecendo?”
Ela falava muito rápido, despejando
as perguntas uma atrás da outra. Eu não fazia a menor idéia de como responder,
por fim decidi pela verdade, ao menos a parte que era possível contar.
“Olha Catalina, Alex e eu estamos
saindo...”
Ela nem me deixou acabar de falar.
“Vocês estão saindo? Desde quando?
Se me lembro bem vocês mal se falavam! Ele deve ser incrível, não? Pobre Nic,
vai ficar desolado. Ele estava a fim de você sabia?”
Eu já desconfiava... Mas rejeitei as
evidências para não ter que lidar com o problema.
“Digamos que quando fiquei doente
algo despertou em nós.”
“Que incrível! Mas é sério? Vocês
estão namorando ou só ficando?”
Não podia revelar a intensidade do
que estava acontecendo, isso a assustaria ou passaria meu atestado de loucura.
“Acho que estamos namorando, mas não
é nada sério. Está só naquela fase inicial sabe?”
“Seu pai já sabe?”
“Acredite, não dá para esconder nada
de Sebastian.”
“Como ele reagiu?”
“Não ficou muito feliz, mas também
não proibiu.”
“Já é um começo. Precisamos sair
para conversarmos mais! Quero saber detalhes. Que tal hoje à noite?”
“Hum! Hoje marquei de fazer compras
com a Natália. Que tal amanhã no final do dia? Vou dar uma passada aqui antes
de ir embora para conversarmos.”
Sabia que não conseguiria me livrar
dela sem responder algumas perguntas, mas também não queria ficar muito tempo
longe de Alexander. Além do mais, isso me daria um dia para pensar o que
contaria, perguntar a Alex o que poderia contar.
“Ok. Vejo você amanhã.”
Catalina foi embora e eu voltei para
o laboratório. Precisava aprender a contar boas mentiras, afinal teria que
parecer normal para o resto do mundo. Nic estava me preocupando um pouco pois
não sabia como ele reagiria ao meu namoro com Alex.
Enquanto pensava em tudo que acontecera
ouvi passos se aproximando. Pude sentir o perfume de Alexander, isso me fez
esquecer de todo resto. Ele entrou no laboratório seguido de uma equipe de
técnicos. Deu-me seu melhor sorriso, se aproximou e segurou minha mão. Seu
toque tinha o poder de apagar todas as preocupações.
“Acho que acabei por aqui, Mel.
Vamos?”
Apenas assenti com cabeça, ansiosa
para começar a trabalhar.
Já dentro do carro decidi ser um
pouco mais profissional.
“O que exatamente eu vou fazer? Como
posso ajudar?”
“Como você não conhece o trabalho de
campo é melhor que fique comigo apenas observando por enquanto. Posso pedir que
ajude em algumas coisas, mas sempre vou explicar os procedimentos corretos para
você.”
“O que está sendo feito lá
exatamente?”
“Até o momento não tivemos muitos
progressos. Natália está tentando traduzir os escritos da parede, mas é uma
linguagem totalmente desconhecida, não se encaixa em nenhum padrão que conheçamos.”
“Então não houve muitos avanços
desde que fiquei presa lá?”
“Não. Encontramos alguns artefatos
de valor histórico, mas que nada acrescentam em nossa pesquisa real. Precisamos
que Natália nos diga o que está escrito naquela parede para prosseguirmos.”
“E se os escritos não forem tão
importantes assim? Se houver mais atrás daquela parede?”
Não sei por que disse aquilo; foi um
impulso incontrolável.
“Talvez seja algo a ser considerado
se continuarmos parados por muito tempo.”
A conversa acabou quando estacionamos em
frente ao castelo. Para chegarmos à caverna, teríamos que seguir a pé. Dei um
gemido de insatisfação, sabia o quanto os raios ultravioletas eram
desconfortáveis.
Antes que pudesse sair, Alex pegou
uma caixa no porta luvas e me entregou.
“Tome, são meus óculos de sol. Não
vai ficar muito elegante, mas ao menos oferecerá algum conforto.”
“Obrigada.”
Coloquei os óculos que ficaram
grandes para o meu rosto e antes que pudesse reclamar que estava ridícula com
eles Alex me deu um beijo de tirar o fôlego.
“Você está tentadora. Vamos antes
que eu desista e leve você para minha casa.”
Adoraria ficar sozinha com ele...
Mas estava decidida a agir de forma profissional! Sebastian não poderia me
acusar de abandonar minhas responsabilidades. Tinha que provar a ele que sabia
separar as coisas. Respirei fundo para me controlar e saí do carro seguindo
Alex.
Mesmo com os óculos a claridade do
dia era desconfortável. Andamos o mais rápido possível sem levantar suspeitas e
logo estávamos no interior da caverna.
O sentimento de pavor que me tomou
da última vez que estivera ali voltou com força. Era como se algo muito ruim
estivesse encerrado naquelas paredes. Era um sentimento diferente. Nunca fora
muito dada a acreditar em intuição, paranormalidade, ocultismo ou seja lá o
nome que as pessoas costumavam dar a isso. Mesmo assim, algo em mim insistia em
dizer para me afastar. Decidi ignorar e seguir em frente.
Alex conferiu alguns trabalhos que
estavam sendo feitos e depois seguimos direto para a parede onde ficavam os
escritos misteriosos. Fixei meus olhos nos símbolos. Não conhecia nenhum, é
claro. Gostaria de saber com que espécie de tinta foram gravados, era bem
diferente de tudo que vira.
“Alex, vocês já descobriram com que
espécie de tinta esses escritos foram gravados?”
“Ainda não. Uma amostra foi enviada
para o laboratório, mas ainda está em análise. No entanto posso assegurar que
não se parece com nada que eu já tenha visto. Por que?”
“Só curiosidade.”
Continuei olhando fixamente para os
símbolos e, talvez devido a falta de luminosidade, meus olhos pareciam estar me
pregando uma peça. Os símbolos começaram e se embaralhar, trocar de lugar e, de
repente, formaram algo parecido com um selo, por alguma razão sabia que era
importante registrar o que estava vendo. Não era boa desenhista, mas faria o
possível.
“Alex, preciso de papel e lápis com
urgência.”
Ele não discutiu comigo, apenas fez
o que pedi.
Milagrosamente consegui reproduzir
exatamente o que estava vendo: um conjunto de símbolos que formavam caracteres
totalmente incomuns aos que já conhecera delimitados por um círculo, como um
selo. Entreguei o desenho para um Alex espantado a me fitar.
“De onde você tirou isto?”
“Estava na parede, você não viu?”
“Mel, a parede continua exatamente a
mesma, nada mudou.”
Olhei para me certificar e percebi
que era verdade, o selo não estava lá.
“Alex, eu não estou louca, os
símbolos dessa parede se modificaram ha alguns minutos atrás; eu vi! Foi este
selo que apareceu.”
“Acredito em você. Mas como sabe que
isto é um selo?”
“Eu apenas sei. É muito estranho. E
pode acreditar: o que diz aí é muito importante!”
“Você não está enlouquecendo, Mel. Já
vi muitas coisas estranhas acontecerem. Vou enviar este desenho para Natália e
pedir que tenha prioridade.”
Então ele saiu me deixando aliviada
por saber que não estava ficando maluca. Por que coisas fora do comum insistiam
em acontecer comigo nos últimos tempos?
Ficar sozinha naquele lugar era
arrepiante. Ainda mais quando as paredes pareciam me chamar, quando pareciam
querer que eu as tocasse. Finalmente não consegui resistir ao apelo e levantei
minha mão esquerda.
Senti um arrepio percorrer meu
corpo. A parede era muito fria e úmida. Consegui sentir desespero e dor vindo
dela, como se ali estivesse encerrado um grande sofrimento. Aos poucos pude
perceber tal sentimento se converter em raiva. Como se algo clamasse por
vingança. Fiquei com medo diante da perversidade ali encerrada.
Tentei me afastar, mas meu corpo se
aproximou ainda mais. Encostei meu rosto na superfície gelada e pude ouvir um
sussurro. Imediatamente saltei para trás. Impossível! Não havia nada vivo
naquele lugar há séculos! Eu devia estar imaginando coisas.
A curiosidade foi maior do que o
medo. Encostei meu ouvido novamente à parede rochosa tentando descobrir o que
estava acontecendo. Pude ouvir claramente o sussurro agora.
“Melissa!... Estávamos esperando por
você! Precisamos de você. Melissa, Melissa.”
Saí correndo daquele lugar sem olhar
para trás. O que afinal estava acontecendo comigo?
Na fuga acabei trombando com Alexander,
que me segurou em um abraço.
“Hei! O que está acontecendo? Do que
você está fugindo?”
Olhei para ele envergonhada antes de
começar a falar. O que ele pensaria de mim quando soubesse?
“Alex, ou eu estou realmente ficando
louca ou tem algo atrás daquela parede que sabe meu nome...”
“Mel, acalme-se e me conte
exatamente o que aconteceu. Confie em mim, você não está louca.”
Contei a ele exatamente o que havia
ocorrido. Alex permanecia em silêncio apenas escutando.
“É possível que você realmente tenha
ouvido algo. Essa caverna é muito antiga. Pode conter segredos ainda
desconhecidos. Não sei explicar exatamente o que está acontecendo. Talvez o
selo nos dê alguma pista. Mas estou convencido de que existe algo atrás daquela
parede. Só gostaria de saber qual é a sua ligação com isso tudo...”
“Eu também gostaria. Nunca sequer
estive na Romênia. Como posso estar ligada a algo encontrado aqui?”
“Você nunca esteve na Romênia, mas é
uma vampira e estamos procurando pelos que deram origem a nossa raça. Pode
haver alguma ligação aí, pode ser uma herança de sangue...”
“Será que Sebastian tem algum
antepassado entre os primeiros?”
“Todos nós temos, Mel. Mas em você
deve haver algo especial...”
“Podemos derrubar a parede?”
“É preciso ir com cautela. Seria
melhor decifrar o selo primeiro.”
Suspirei de alívio. Alex percebeu e
comentou.
“Pensei que estivesse curiosa para
descobrir o que está lá atrás.”
“E estou. Mas confesso que também
estou com medo. Não sei o motivo, mas posso sentir algo ruim nesta caverna. Ela
me dá arrepios!”
“Provavelmente é porque lugares
antigos guardam suas próprias memórias. Não sabemos dizer que tipo de
atrocidades podem ter acontecido aqui, seitas antigas costumavam praticar
rituais macabros...”
“É... Você deve ter razão.”
Assim demos o assunto por encerrado
e prosseguimos vasculhando o local sem encontrar mais nenhuma novidade. Não
paramos para almoçar. Não precisávamos disso. Mas no final da tarde comecei a
sentir minha garganta arder de sede e achei que era hora de dar o sinal
vermelho, afinal havia humanos no local.
“Alex, acho que preciso ir embora. Estou
faminta.”
Ele entendeu a mensagem e deu o
expediente por encerrado e fomos para o carro.
“Você quer agora ou consegue esperar
até chegarmos em casa?”
Sabia que ali teríamos sangue frio e
a idéia não me agradou.
“Consigo esperar.”
Alex sorriu e deu partida no carro.
Dei uma rápida olhada para a trilha
e vi o vento balançar as folhas, ouvi novamente um sussurro.
“Melissa, estamos esperando você.
Venha nos libertar!”
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