Capítulo 20 – A fuga
Como
só eu sabia dirigir, nos apertamos em uma das caminhonetes e seguimos para o
laboratório. Tentei tirar proveito da situação e retardei ao máximo a chegada
na esperança de que os demais recobrassem a consciência. Meu esforço foi em
vão. Passamos pelos portões com eles ainda desacordados.
Não tinha idéia do que fazer. Apenas
os transportei para dentro e os acomodei na sala de Sebastian enquanto era
vigiada de perto. Não sabia exatamente o que estava por vir, mas tinha certeza
de que precisava evitar que eles tivessem acesso a sangue. Para minha sorte
todo nosso estoque havia sido usado.
Meu algoz entrou na sala.
“Vejo que seus amigos já estão
confortavelmente instalados. Agora já pode me acompanhar.”
Um dos vampiros ficou de guarda na
porta enquanto o outro seguiu conosco.
“Onde exatamente estamos indo?”
“Verificar em que estado estão os
outros para que eu possa trazê-los de volta.”
“E como pretende fazer isso?”
“Seu sangue me regenerou, o meu pode
fazer o mesmo com eles.”
“Então não sou mais necessária.”
“Você se engana, sua importância vai
muito mais além. Seu sangue é puro como o meu. Você é a única fêmea da espécie,
está destinada a ser minha.”
Decidi não argumentar, era melhor
não contradizer tal loucura, pelo menos até ter um plano para fugir.
Depois de percorrermos algumas salas
a inspeção estava acabada. Ele se dirigiu ao vampiro moreno que estava atrás de
nós.
“Parece que está tudo em ordem
Klaus. Logo iniciaremos o processo para trazê-los ao nosso convívio. Mas eles
estarão famintos.”
“Então é hora da caça!”
“Certamente, meu amigo.”
Os vampiros se entreolharam e surgiu
um brilho vermelho em seus olhos. Estavam excitados com a perspectiva de caçar.
“O que vocês vão caçar?”
Na verdade já sabia a resposta, mas
precisava me certificar.
“Comida, minha querida. Sangue
fresco para os meus. Humanos deliciosos.”
Fiquei horrorizada. Nunca havia
pensado em matar alguém para me alimentar.
“Não há outro jeito?”
Rômulo
soltou uma gargalhada.
“Claro que há, mas que prazer
haveria nisso?”
Eles eram monstros. Gostavam de
matar. Era o tipo de criatura a qual temer. Afastei meus medos e comecei a
pensar com praticidade. Eles sairiam para caçar, isso me dava uma chance de
escapar. Torci para que todos já estivessem acordados. Estava tão perdida em
meus pensamentos que dei um pulo quando Klaus falou.
“Ela virá conosco?”
“Ah, bem lembrado, Klaus!”
Então Rômulo olhou em meus olhos.
“Cara dama, desculpe-me pela
grosseria de não convidá-la. Gostaria de nos acompanhar na caçada?”
Respondi sem pensar:
“Você só pode estar brincando, né?
Não vou tomar parte nisso!”
Um sorriso surgiu em seus lábios.
“Eu já esperava uma recusa. Você
ainda não conheceu os prazeres que esta vida pode proporcionar, mas haverá
tempo para corrigir tal descuido. Acho que é hora de ficar com seus amigos.”
Fui trancada na sala e o guarda
permaneceu. Foi ilusão minha achar que nos deixariam sozinhos. Suspirei, ao
menos agora era só um.
Percebi um movimento atrás de mim,
uma cabeça se moveu. Era Alex. Corri para abraçá-lo.
“Oh, Alex! Graças a Deus você está
bem!”
Ele se sentou e me tomou nos braços,
então estávamos no beijando e tudo aquilo ficou para trás, como se o mundo
deixasse de existir. Fomos arrancados do paraíso por pigarros impacientes. Era
o restante que nos rodeava. Foi Natália quem falou primeiro.
“Sinto interromper os pombinhos, mas
seria bom que Mel nos explicasse como viemos parar aqui. Só consigo me lembrar
da parte em que fomos atacados.”
“Certo! Rômulo já deve ter falado
para você sobre toda aquela baboseira de originais.”
Todos assentiram.
“Vocês também devem ter percebido
que eles são incrivelmente fortes, rápidos e inteligentes.”
Sebatian me cortou.
“Precisamos saber o que aconteceu
depois, Mel.”
“Robert e eu fomos buscar vocês, ele
não voltou e quando fui ver o que estava acontecendo encontrei vocês
inconscientes e três vampiros me cercando.”
“Por que eles não atacaram você?”
“Esta é a maior das insanidades. O
tal Rômulo, que parece ser o chefe, fica falando o tempo todo que eu também
tenho sangue puro, que foi meu sangue que o libertou e que estou destinada a
ser dele. É mole?”
Percebi que a expressão de Alex se
fechou e seus braços apertaram minha cintura enquanto falava.
“Só faltava essa agora! Um vampiro
milenar apaixonado por você!”
“Não acho que ele esteja apaixonado.
Tem algo a ver com aumentar o poder.”
Foi a vez de Hellen se pronunciar.
“Hei! Não é hora para crise de
ciúmes. Vamos nos concentrar! Qual é nossa situação atual?”
Pedi que todos chegassem mais perto
e sussurrei com medo de que o guarda na porta ouvisse.
“Só temos um guarda na porta. Os
outros saíram para caçar, e acreditem: são presas humanas. Quando voltarem vão
tentar ressuscitar os demais.”
“Então precisamos agir agora!” Alex
soltou minha cintura enquanto falava. “Precisamos entrar em contato com Josh.
Sebastian onde ele está?”
“Viajou até Bucareste para buscar
alguns materiais que acabaram, mas já deve estar voltando.”
Alex colocou a mão no bolso da calça
e retirou o celular.
“Para nossa sorte eles desconhecem a
tecnologia atual. Acho que ainda tenho bateria para mandar uma mensagem. Vou
pedir que nos espere no aeroporto de Bucareste com passagens para Paris.”
“Mas e as pessoas que eles estão
trazendo para cá? Não podemos deixar que morram!”
Alex segurou meu rosto.
“Mel, meu amor, nossa prioridade é
sair daqui e colocá-la em segurança. Depois vamos nos organizar e voltar para
pegá-los.”
Quis protestar, mas sabia que ele
tinha razão.
“Alex, não podemos deixar que tentem
ressuscitar os demais.”
Robert concordou comigo.
“Ela tem razão, a força deles
aumentará muito.”
“Ok, então queimaremos os corpos na
fuga.”
O plano era bem simples: Alex e
Robert renderiam o guarda e arrancariam sua cabeça, deixá-lo vivo significaria
dar chance ao inimigo, depois incendiaríamos o laboratório, assim todos os
corpos estariam perdidos para sempre. Josh nos esperaria no aeroporto e
seguiríamos para Paris, de lá estudaríamos uma estratégia para pegar Rômulo.
A tarefa de render o guarda parecia
fácil, não estávamos preparados para o que aconteceu.
Quando Alex e Robert derrubaram a
porta, prontos para atacar o guarda, ele não se encontrava mais lá. Antes que
pudéssemos nos recuperar da surpresa senti um vulto passar por mim. Olhei para
trás e vi Hellen e Natália caídas no chão, inconscientes.
Como aquilo era possível? Mesmo que
ele tivesse ouvido nossa conversa não teria tempo de reagir tão rápido. Sem
contar o fato de que era apenas um! Deveríamos ser capazes de dominá-lo.
Alex, Robert e Sebastian, finalmente
recuperados da surpresa, colocaram-se em posição de ataque. Trabalhando em
conjunto buscavam cercar seu oponente. Mas ele era veloz demais. Era difícil
focalizá-lo enquanto se movia.
Não sabia o que fazer para ajudar.
Nunca havia lutado na vida.
Enquanto tentava imitar os
movimentos de Robert o guarda passou por nós e imobilizou Alex. Em apenas um
segundo ele estava segurando sua cabeça entre as mãos. Não tive tempo para
pensar. Alex seria assassinato bem na minha frente. Precisava fazer alguma
coisa.
Em menos que um piscar de olhos eu
estava voando em direção ao guarda. Senti minhas mãos, dotadas de uma força
inumana, segurarem seus braços e libertarem Alex. Mas isso não bastava. Eu não
queria parar. Queria aquela criatura morta. Meus caninos tocaram seu pescoço
rasgando a carne, cortando tudo o que encontraram pela frente. Inicialmente
podia ouvir seus gritos de dor. Depois só restou o silêncio.
O tempo pareceu parar. Minha mente
ficou completamente vazia. Não conseguia dizer onde estava ou o que estava
acontecendo. Sentia algo pesado em minhas mãos, mas não queria ver o que era.
Voltei à realidade ao ouvir a voz suave de Alex enquanto se aproximava.
“Mel, meu amor, você
está bem? Posso me aproximar? Está tudo acabado agora!”
Por que ele estava sendo tão
cuidadoso? Por que precisava pedir permissão para se aproximar?
De repente, como num lampejo, toda a
ação anterior foi voltando a minha mente. Gritei horrorizada:
“AH, NÃO!”
Olhei para minhas mãos que seguravam
a cabeça de um vampiro. Eu havia feito aquilo! Matara alguém! E tinha gostado
disso! Comecei a tremer.
Alex se aproximou e retirou a cabeça
de minhas mãos. Depois me abraçou enquanto procurava me acalmar.
“Está tudo bem! Acabou! Estamos
livres!”
Comecei a falar com voz trêmula.
“Eu o matei! Arranquei sua cabeça.”
Alex começou a acariciar meus
braços.
“Mel, você não teve escolha...”
“Ele ia matar você.”
“Eu sei, meu bem. Você fez a coisa
certa.”
“Como matar alguém pode ser a coisa
certa a se fazer?”
Fiz aquela pergunta mais para mim
mesma. Alex pareceu perceber, pois não se preocupou em responder, apenas
continuou me abraçando.
Queria muito chorar. Sentia que se
movesse um músculo ficaria histérica. A sensação de prazer que senti quando
ataquei aquele vampiro estava me matando. Eu havia gostado! Meu Deus! Eu era um
monstro!
“Mel, meu amor, você precisa
respirar. Vamos! Bem devagar!”
Obedeci automaticamente, imersa em
meus pensamentos. Sentia-me aliviada por ter salvado Alex, mas também estava
miserável por ter me transformado em uma assassina. Também não conseguia
entender como fora capaz de tal feito. Desconhecia a força e a velocidade que
surgiram em mim.
“Mel?”
Alex me trouxe novamente a
realidade.
“Alex?”
“Precisamos sair daqui.”
Ele tinha razão, o perigo ainda nos
espreitava. Natália e Hellen ainda estavam desacordadas, então Robert e Sebastian
decidiram carregá-las.
Nunca fora tão difícil caminhar
pelos corredores daquele prédio. Outrora repletos de pessoas agora estavam
sombrios, um silêncio mortal nos envolvia.
À porta do laboratório de Sebastian
paramos. Ele tomou a frente e abriu a porta enquanto falava.
“Vamos começar por aqui. É onde se
encontra o maior número de corpos.”
Entrando pude contar nove macas,
precisávamos acabar com eles antes que pudessem nos atacar. A lembrança do
vampiro morrendo em minhas mãos fez com meu corpo se retesasse. Coragem!
Precisava seguir em frente! Não era hora para crises emocionais. Depois poderia
pensar no que fiz e tentar conviver com isso.
Natália e Hellen foram depositadas
no chão enquanto Alex as examinava.
“Ele interrompeu o fluxo de sangue
para o cérebro. Precisamos reanimá-las.”
Como ele sabia tudo aquilo? Parece
que todos ali eram gênios.
Em pouco tempo as duas estavam de
pé. Um pouco desorientadas, sem saber o que havia acontecido, mas vivas. Robert
explicou rapidamente os últimos acontecimentos enquanto pegávamos querosene e
espalhávamos sobre os corpos.
Alex interrompeu seus movimentos e
chamou nossa atenção.
“Eles voltaram.”
Hellen olhou-o surpresa.
“Como pode ter tanta certeza?”
“Posso ouvir passos do lado de fora.
Estão trazendo muitos com eles.”
Alex tinha razão. Também podia ouvir
os passos. Era capaz de ir além, havia corações batendo. Estavam trazendo suas
vítimas. Provavelmente umas quinze. Quantas pessoas inocentes destinadas a ter
um fim tão terrível!
Enquanto acabávamos de encharcar os
corpos tive a certeza de que não conseguiríamos completar o trabalho. Aqueles
corpos seriam os únicos que incendiaríamos. O cheiro de mofo e sangue ficava
cada vez mais forte, agora conseguia identificar algo mais, eles cheiravam a
madeira e rosas. Provavelmente era um odor agradável quando estavam limpos.
“Pai, precisamos sair daqui, eles
estão entrando.”
Ninguém questionou minha afirmação.
Com enorme velocidade nos posicionamos em frente às duas janelas existentes. O
plano era atearmos fogo e pularmos por elas.
Antes que Natália pudesse acender o
isqueiro ouvi duas vozes conhecidas.
“Quem são esses caras, Nic?”
“Sei lá. Mas são bem estranhos.”
“Não consigo imaginar uma equipe de
pesquisadores tão renomados se relacionando com esses tipos. Você viu as roupas
deles?”
Droga! Só faltava essa! Rômulo
pegara Nic e Catalina.
“Espere, Natália!”
Sua mão parou no ar e seu olhar se voltou
para mim.
“O que foi, Mel?”
“Eles pegaram Nic e Catalina. Vou
ter que tirá-los daqui.”
Ouvi Alex praguejar antes de falar.
“Não podemos ir lá agora.”
“Mas eles são meus amigo. Não vou
abandoná-los.”
“Então eu vou sozinho.”
“Nem pensar! Vão pegar você também.”
“Se formos os dois também poderemos
ser capturados.”
“Aí é que você se engana. Sou mais
rápida que eles, já provei isso.”
Não queria lembrar do meu ato como
assassina, mas não tinha outra forma de convencê-lo.
“Não gosto da idéia, você pode de
machucar.”
“Não vou deixá-los aqui.”
“Teremos que ser muito rápidos.”
“Eu consigo.”
Sabia que tinha vencido. Alex sabia
que tentaria o resgate com ou sem a sua ajuda.
“Natália fique preparada. Assim que
entrarmos novamente por aquela porta ateie fogo.”
Sebastian segurou meu braço.
“Mel, vou com você.”
Alex chamou-o a razão.
“Precisamos ser rápidos, se
estivermos em maior número isso nos atrasará.”
A expressão de meu pai era de
profundo desgosto.
“Não deixe que nada aconteça a ela,
Alex.”
Alex apertou sua mão e saímos para o
corredor.
Decidimos seguir para a sala da
segurança. As câmeras de lá nos mostrariam exatamente a posição de Nic e
Catalina.
Klaus entrou no prédio e conduziu a
todos para a recepção. Para nossa sorte Nic e Catalina ficaram próximos ao
corredor que dava acesso aos laboratórios.
“Mel, não vamos ter tempo para
explicações. Vamos ter que assustá-los.”
Concordei com um aceno de cabeça.
“Teremos que ser bem rápidos, eles
vão notar nossa presença de qualquer maneira.”
“Como vamos agir, Alex?”
“Simplesmente entraremos e pegaremos
os dois. Eu fico com o rapaz. Depois corremos o máximo possível. O elemento
surpresa estará a nosso favor.”
Enquanto corríamos em direção à
recepção nossos passos pareciam ecoar alto, não importava o quão leve
estivéssemos pisando.
Nic e Catalina nem viram o que os
arrebatou. Voávamos pelos corredores. Nossa vantagem era mínima, podia
sentí-los em nosso encalço.
Sem olhar para trás passamos pela
porta do laboratório e as chamas explodiram. Graças a Deus Natália estava a
postos.
Enquanto as labaredas subiam e
pulávamos pelas janelas meu olhar cruzou com o de Rômulo. Estranhamente sua
expressão era divertida.
Quando meus pés tocaram o chão pude
ouvir sua voz dentro de minha cabeça.
“Você não vai poder fugir
eternamente, Mel! Eu vou achá-la! Isso só torna o jogo ainda mais estimulante.”
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