sábado, 14 de janeiro de 2012

PUBLICAÇÃO SEMANAL: CAPÍTULO 19


Capítulo 19 – A supremacia do mal

            Alex percebeu meu estado de espírito e segurou minha mão sem fazer perguntas enquanto nos encaminhávamos para cumprir nossa parte na investigação. Seu toque me acalmou um pouco, mas aquela gargalhada não saía da minha cabeça, me aterrorizava.
            Na parte de dentro não encontramos nada, mas uma parte do perímetro externo ainda precisava ser verificada. Nos encontramos na recepção para decidir o que seria feito.
            “Mel, você não vai participar desta busca.”
            “Mas, pai...”
            Antes que pudesse tentar argumentar Alex segurou minha mão e tomou o partido de Sebastian.
            “Ele tem razão, Mel. Falta pouco para o amanhecer, seria arriscado expô-la dessa maneira.”
            Fiz cara feia, mas acabei concordando. Ficar ao sol ainda não era uma boa idéia para mim.
            Ficar ali sozinha foi quase uma tortura. Os minutos pareciam se arrastar e era frustrante não saber o que estava acontecendo, não poder participar da ação. Quando Robert passou pela sala apressado soltei um suspiro de alívio enquanto o bombardeava com perguntas.
            “Acharam alguma coisa? Onde estão os outros? Por que não voltaram com você? Cadê o Alex?”
            Robert sorriu e pousou sua mão suavemente sobre meu ombro.
            “Calma garota, uma pergunta de cada vez.”
            Concordei com um aceno de cabeça enquanto sorria envergonhada.
            “Encontramos algo surpreendente! Jamais pensei que fosse possível.”
            Enquanto ele fazia uma pausa minha mente fervilhava de curiosidade.
            “Não encontramos corpos, mas vampiros vivos. Dá pra acreditar nisso?”
            “Como assim?”
            “Alex sentiu um cheiro diferente e seguimos por uma trilha que nos levou a um casebre abandonado e eles estavam lá, os corpos voltaram à vida. Não sei explicar como, só sei que estão muito debilitados, precisando de cuidados e não podem sair ao sol. Impressionante, não?”
            Não sabia exatamente o que pensar, mas podia sentir uma onda de medo invadir meu corpo. Os corpos estavam vivos? Quem eram essas criaturas? Provavelmente muito mais poderosas do que nós, mas será que tinham boas intenções?
            “Alex e Hellen foram providenciar sangue, eles precisam se alimentar. Sebastian e Natália ficaram com os vampiros. Estão tentando se comunicar melhor. Eu vim avisá-la e preparar transporte adequado para trazê-los para cá ao cair da noite. Vão precisar de maiores cuidados.”
            “Posso ajudar?”
            “Claro! Quatro mãos trabalham melhor que duas.”
            Preparamos duas caminhonetes para o transporte e depois esperamos. Quando o sol finalmente se pôs nos colocamos a caminho.
            Minha caminhonete seguiu logo atrás da de Robert. Precisávamos ir devagar, com as luzes desligadas, evitando chamar a atenção. Não demorou muito para avistarmos o casebre. Estacionamos e seguimos em direção à porta.
            Estava muito quieto. Não conseguia escutar sequer uma voz conhecida.
            “Robert, você não está achando este silêncio esquisito?”
            Ele apenas parou e virou-se para mim com um dedo nos lábios. Entendi a mensagem e fiquei quieta para tentarmos captar algo, mas não havia nada, apenas um cheiro diferente misturado com o forte aroma de sangue fresco.
            “Fique aqui, Mel. Vou entrar primeiro e ver o que está acontecendo.”
            Pensei em protestar, mas era perda de tempo. Era melhor alguém ver logo o que se passava lá dentro.
            Robert entrou e permaneceu lá. O tempo passou e comecei a ficar impaciente. Finalmente não agüentei mais o suspense e resolvi ver pessoalmente o que havia no interior daquele lugar.
            O casebre estava praticamente caindo aos pedaços. Era bem antigo e fora completamente abandonado, o que era um crime levando-se em conta seu valor histórico. Meu Deus! Eu devia ter realmente algum problema muito sério no cérebro. Estava prestes a encontrar vampiros milenares e meus pensamentos eram sobre patrimônio histórico? Foco! Pensei comigo mesma. Concentre-se no que está lá dentro!
            Coloquei o pé na soleira da porta com insegurança, deixando meus olhos se acostumarem com o ambiente. Era uma sala pequena e completamente vazia, com pedaços da parede caídas ao chão.
            “Alex? Pai? Onde vocês estão?”
            Mas nenhum som veio em resposta. Senti que minha respiração se acelerava. Algo estava muito errado. E aquele cheiro, sangue misturado com mofo e algo que não conseguia descrever, era cada vez mais forte ali.
            Eu precisava dar o passo seguinte. Meus pés tocaram o assoalho e a madeira rangeu. Dei um pulo. Não estava gostando daquilo.
            Havia uma porta logo à frente. Segui em sua direção e fiquei imóvel diante da cena que se descortinava diante de meus olhos.
            Corpos empilhados. Sebastian, Natália, Hellen, Alex e, no topo Robert. Forcei meus músculos a se moverem e me aproximei. Antes que pudesse tocá-los percebi um movimento às minhas costas. Dois vultos se posicionaram barrando a saída enquanto ouvia passos se aproximando.
            Não tinha coragem para me virar e encarar seja lá o que estivesse ali . Segurei a respiração para controlar o pânico e tentar não demonstrar fraqueza.
            Uma voz melodiosa cortou o silêncio. O mesmo sussurro que costumava ouvir em meus delírios, só que agora alta e clara.
            “Cara Melissa, finalmente chegou a hora de nos conhecermos.”
            E agora? Definitivamente era demais para mim. Não consegui entender o que estava acontecendo. Foco! Precisava me concentrar nos meus amigos inconscientes. Tinha que saber o que estava acontecendo.
            Virei-me abruptamente para não perder a coragem enquanto analisava a figura à minha frente. O cheiro de mofo vinha das roupas que praticamente se desfaziam em seu corpo e o sangue de manchas na mesma. Provavelmente os outros dois encontravam-se em situação semelhante, mas não queria desviar o olhar para verificar.
            O homem que via, ou melhor vampiro, não lembrava em nada o cadáver ressequido na maca do laboratório há algumas horas atrás. Sua pele era bonita, muito pálida, mas completamente jovem e bem cuidada. Seu cabelo loiro caía nos ombros já completamente regenerado. Tinha feições refinadas, nariz aquilino, queijo pontudo e olhos negros como a noite. Se portava como um rei, conforme mexia a mão era possível perceber o brilho do anel em seu dedo.
            “Não pode ser.”
            Sussurrei enquanto observava. Ele soltou uma gargalhada.
            “Não precisa ficar espantada. Aconteceu exatamente o que estava previsto. Nossa hora chegou.”
            “Como assim? E o que aconteceu com eles?”
            “Vamos por partes, minha querida. Primeiro gostaria de lhe agradecer por nos trazer de volta, só você poderia ter feito isto.”
            “Mas eu não fiz nada.”
            “Você existiu e veio até mim. Ouviu meu chamado. Depois seu sangue restituiu a vida.”
            “Era você o tempo todo! Mas como?”
            “Eu posso entrar em sua mente, colocar meus pensamentos aí. Você nasceu para nos libertar, para se unir a nós em nossa vingança.”
            “Que história é essa? Eu nem sei quem você é? Só quero saber o que aconteceu a eles!”
            “Que indelicadeza a minha, ainda não me apresentei. Sou Lorde Rômulo Ândracas, o primeiro dos originais e seu futuro esposo.”
            “Meu futuro esposo? Você é pirado, certo? Os anos de isolamento fizeram com que enlouquecesse? O que fez com eles?”
            “Calma, minha querida!”
            “Não sou sua querida!”
            “Certo, vejo que a ansiedade por seus amigos a está deixando irritada. Melhor esclarecer a questão. Chegue mais perto e verá que eles estão apenas desacordados.”
            Aproximei com cautela não querendo dar as costas a aquele maluco, mas louca para ter certeza de que ele falava a verdade. Soltei um suspiro de alívio.
            “Satisfeita agora?”
            “Mas por que? Como? Vocês são apenas três!”
            “Sim, somos apenas três, mas somos mais fortes e experientes, por isso nem pense em resistir. Apenas acabamos com a oposição. Quando o sangue que nos foi dado recobrou nossas forças tentei fazê-los aliados, incluí-los em nossos planos para a humanidade, mas recusaram. Quando toquei em seu nome ficaram enfurecidos, então eu e meus amigos tivemos de imobilizá-los.”
            Suspirei aliviada. Pelo menos não estavam mortos. Agora precisava encontrar um meio de lidar com esses malucos e tirar todos dali.
            “Seus planos não vão funcionar, Melissa. A única maneira de sair daqui com seus amigos vivos é ao meu lado, como minha companheira.”
            Então este era o motivo de eles ainda estarem vivos: pura chantagem.
            “Mas isto é absurdo! Eu não posso ser forçada a nada, estamos no século XX. Além do mais, vocês já tem o que querem: estão vivos, nem sei porque não usaram qualquer um para escapar.”
            “Você não leu as profecias, criança? Só o sangue puro poderia nos libertar, ou seja, o seu sangue.”
            “Que conversa é essa sobre sangue puro?”
            “Nós somos puros, não fomos transformados, mudamos naturalmente. Só outro puro poderia nos libertar. Você terá poderes inimagináveis e deve uni-los aos meus para que possamos estender nosso domínio pelo mundo.”
            “Há, há, há! Eu sequer tenho todos os poderes de um vampiro normal ainda e você acha que sou especial? Estou mais para aberração. Eu não vou me unir a ninguém!”
            Com um gesto de cabeça de Rômulo os dois vampiros saíram de suas posições e levantaram um inconsciente Robert.
            “Uma ordem minha e a cabeça de seu amigo será arrancada. Posso fazer isso com todos eles! Venha comigo e serão poupados.”
            Analisei minhas opções. Não conseguiria parar aqueles dois a tempo. Robert estaria condenado se eu resolvesse lutar. Não fazia a menor idéia de como derrubar três vampiros super fortes e ao mesmo tempo retirar todos com vida dali.
            Olhei para Rômulo, ele esperava com a mão estendida.
            Olhei novamente para a pilha e vi o rosto de Alex. Precisava ganhar tempo, encontrar um meio de escapar.
            “O que me garante que não vai matá-los se eu concordar?”
            “Dou minha palavra de que serão mantidos apenas como prisioneiros.”
            “Em que condições?”
            “Vivos e sem torturas.”
            Parecia que era o melhor acordo que conseguiria.
            “Por que confiaria em sua palavra?”
            “Minha querida, venho de uma época em que a palavra vale mais do que a própria vida”
            Ignorei sua mão estendida e tomei lugar ao seu lado.
            “Quando chegarmos a nosso destino quero verificar se eles estão bem. Aliás, gostaria de saber para onde serei levada.”
            “Você nos levará a nossos irmãos. Precisamos trazê-los a vida.”
            Meu Deus! Ele queria ressuscitar mais vinte e nove vampiros? Precisava impedir tal feito! Tinha que pensar em algo e urgente...

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