Capítulo 21 – O vôo
Ver as luzes de Bucareste foi um
alívio. No entanto não poderíamos ir direto para o aeroporto nas condições em
que nos encontrávamos.
Natália propôs que fizéssemos uso de
uma pequena hospedaria. Todos concordaram. Enquanto nos registrávamos ela saiu
para providenciar roupas limpas, as nossas estavam em estado lamentável.
Nic e Catalina começaram a sair do
estado de choque em que se encontravam. Não sabia o que dizer a eles. Decidi
pedir ajuda a Sebastian.
“Pai, o que vamos fazer com eles?”
“São humanos, Mel, não poderão vir
conosco.”
“Mas se os deixarmos aqui acabarão morrendo.”
“Se vierem conosco vão nos atrasar.”
“Não podemos simplesmente
abandoná-los. Dessa forma parece que os salvamos para depois entregá-los
novamente.”
Alex enlaçou minha cintura enquanto
colocava seu ponto de vista.
“De certa forma ela tem razão,
Sebastian. Seria cruel abandoná-los a própria sorte.”
“O que você sugere?”
“Vamos levá-los conosco, ao menos
até decidirmos exatamente o que faremos. Não precisamos exatamente nos
explicar. Podemos hipnotizá-los.”
Fiquei olhando de um para outro
enquanto falavam, sem saber exatamente o que pensar.
“Pai, Alex, hipnose? Estaríamos
tirando deles o livre arbítrio.”
Alex apertou ainda mais minha
cintura.
“É o único jeito, Mel. Não podemos
revelar a eles a verdade. Não temos tempo para explicações.”
“Ok. Por hora pode ser.”
Não deixaria meus amigos sem
proteção. No entanto, assim que fosse possível libertaria suas mentes e lhes
contaria a verdade. Seria um choque, mas eles tinham o direito de decidir o que
fariam com suas vidas.
Hellen e Catalina dividiriam o
quarto. Assim ela poderia controlar sua mente. Robert se encarregaria de Nic.
Bati o pé para ficar com Alexander, mas Sebastian estava irredutível. Acabei
dividindo o quarto com Natália.
Não tínhamos intenção de pernoitar.
Sebastian pagou nossas diárias adiantadas e fomos nos preparar para partir.
Despedi-me de Alex com um beijo e entrei no quarto.
Era uma hospedaria simples. O quarto
era recoberto com um papel de parede verde, o chão era de madeira escura, havia
duas camas, uma ao lado da outra, e uma TV colocada em suporte de teto. Pelo
menos tínhamos um banheiro.
Como Natália ainda não havia
retornado entrei no chuveiro. Quanto antes estivéssemos prontos melhor. A água
caindo sobre a minha pele não teve o efeito desejado. Meus músculos continuavam
tensos. As últimas palavras de Rômulo ecoavam dentro da minha cabeça. Ele havia
feito uma promessa: iria me caçar.
Ouvi quando Natália entrou no
quarto. Rapidamente desliguei o chuveiro, sequei o corpo e saí do banheiro.
Ela estava parada em frente à
janela. Seus cabelos, completamente desalinhados devido aos últimos
acontecimentos, lhe davam um ar selvagem. Senti um aperto no peito. Ela tinha
sido minha primeira amiga na Romênia! Agora estava condenada à morte! Todos nós
estávamos!
Lentamente Natália se voltou para me
olhar enquanto abria um pequeno sorriso. Provavelmente tentava demonstrar
tranqüilidade.
“Mel, as coisas nem sempre são tão
ruins quanto parecem.”
“Você pode ter razão. No entanto
elas também podem ser ainda piores.”
Nenhuma palavra no mundo conseguiria
me tranqüilizar. Natália percebeu isso.
“Certo, vamos precisar esperar para
ter uma visão real da nossa situação.”
Concordei com um aceno de cabeça.
“Trouxe roupas descentes para você.
Enquanto se arruma vou dar um jeito nesse cabelo.”
Abri uma sacola que estava em cima
da cama e encontrei um vestido preto e um casaco bege elegantíssimo. Para
completar o conjunto uma bota de cano alto e altos finos juntamente com meias e
lingerie pretas. Natália havia enlouquecido! Não saberia sequer andar com
aquelas botas.
Paciência! Aquilo era tudo que tinha
no momento. Vesti as roupas, fiz uma trança nos cabelos e me recusei a olhar no
espelho.
Quando Natália saiu do banho soltou
um assobio ao meu olhar.
“Garota, você está deslumbrante.”
Apenas fiz uma careta. Não me sentia
deslumbrante e sim completamente desajeitada dentro daqueles trajes tão
elegantes.
Encontramo-nos todos no saguão da
hospedaria e chamamos táxis para o aeroporto. Estavam todos excepcionalmente
bem arrumados. Ao que parece Natália havia se divertido fazendo compras.
Alexander era o mais lindo de todos.
Vestia uma calça preta que lhe caía perfeitamente. A blusa de gola alta azul
combinava perfeitamente com seus olhos e marcava seus músculos. Quando saímos
completou o conjunto vestindo um casaco de couro. Senti uma vontade imensa de
me jogar em seus braços, mas acabei me contentando em segurar sua mão. Isso era
frustrante!
Quando entramos nos veículos Alex
passou o braço sobre meu ombro enquanto sussurrava em meu ouvido:
“Você está linda.”
Teria corado de vergonha, se
pudesse. Entretanto, somente encostei minha cabeça em seu peito e inalei seu
perfume inebriante.
Josh já nos esperava na entrada do
aeroporto. Certamente Sebastian já o havia colocado a par de toda a situação.
Trazia uma maleta nas mãos e nos conduziu para dentro.
“Sebastian, meu amigo, fico feliz
que todos estejam bem.”
“Eu também, meu amigo. Passamos por
alguns momentos difíceis. Conseguiu tudo o que precisamos?”
“Mas é claro. Estou sempre
preparado, nunca sabemos quando uma mudança de identidade será necessária.”
“E as contas bancárias?”
“Tudo em ordem. O dinheiro já foi
transferido.”
Sebastian lhe deu um sorriso.
“Excelente trabalho, Josh! Como
sempre. Quando sairá nosso vôo?”
“Em quarenta minutos. Podemos fazer
o check in e seguir para a sala vip. Providenciei passagens na primeira
classe.”
“Maravilhoso! Merecemos ao menos
viajar com conforto.”
Que conversa mais esquisita! Como
eles conseguiam ser tão polidos diante da situação? A curiosidade falou mais
alto em mim.
“Alex, como eles conseguem agir
assim? Essa calma toda não é natural.”
Alex sorriu diante da minha
curiosidade.
“Já estamos acostumados, Mel! Com o
passar dos anos precisamos aprender a desaparecer. Se ficarmos muito tempo em
um lugar as pessoas acabam percebendo que não envelhecemos. Somos mestres em
manter as aparências, mesmo em situações de grande stress.”
Então éramos grandes mentirosos! Não
gostava disso. Como poderia saber quem realmente estava sendo sincero comigo?
Os quarenta minutos que antecederam
o embarque foram agonizantes. Não conseguia tirar os olhos da porta da sala
vip. O tempo todo esperava ver Rômulo passando por ela com seu séquito de
vampiros sanguinários.
Finalmente ouvimos a chamada para o
embarque e nos encaminhamos para o avião. Nic e Catalina conversavam animados
com Hellen como se estivessem participando de uma excursão. Era desconfortável
ver meus amigos assim, tratados como marionetes.
Meus nervos estavam à flor da pele.
Sentia que se falasse com alguém iria desmoronar. Deixei-me ser conduzida por
Alex evitando conversas desnecessárias. Ele era o único que podia perceber meu
real estado de espírito.
Entramos no avião e nos acomodamos.
Não havia bagagens, apenas bolsas de mão parcialmente vazias. Alex permaneceu
em silêncio enquanto se acomodava ao meu lado. Apenas acariciava minha mão de
forma reconfortante.
Quando a aeromoça pediu que
prendêssemos o cinto, minhas mãos trêmulas não foram hábeis o bastante para
realizar a tarefa, deixei Alex terminá-la para mim. Finalmente as turbinas
foram ligadas e em poucos minutos decolamos.
Pude ouvir os suspiros de alívio de
meus amigos. Agora eles poderiam deixar cair as máscaras e perder-se em seus
próprios pensamentos. Não havia mais platéia para representar. Essa era a
grande beleza da primeira classe, tínhamos privacidade. Ao menos enquanto
durasse o vôo era possível esquecer o resto da humanidade.
Encostei minha cabeça no peito de
Alex e este passou a mão sobre meu cabelo.
“Pode relaxar um pouco, Mel. Estamos
seguros agora.”
O problema é que não sabia até
quando estaríamos seguros. Estava incerta sobre contar a Alex sobre a promessa
de Rômulo. Acabei decidindo por ser sincera.
“Alex, promete não ficar bravo se eu
contar uma coisa?”
“Depende do que você vai contar.”
Respondeu Alex com ar zombeteiro.
Dei um tapinha em seu braço.
“É sério, Alex. Prometa!”
“Ok. Pode falar.”
Resolvi soltar a bomba toda de uma
vez. Tomei fôlego e comecei a falar:
“No final Rômulo falou dentro da
minha cabeça. Ele prometeu que viria atrás de mim.”
Seus dedos ficaram petrificados em
meus cabelos. Desvencilhei-me e vi que sua expressão era sombria.
“Alex, você prometeu.”
“Eu sei. Vou cumprir minha promessa,
por hora vou manter a calma. Mas terei que matar esse Rômulo. Ele não me deixa
outra escolha.”
Só de imaginar Alex enfrentando
Rômulo sentia calafrios. Ele era poderoso demais, jamais permitiria que tal
fato acontecesse. Não suportaria vê-lo machucado. Minha vida não existiria se
Alex deixasse de existir.
Peguei seu rosto entre as mãos e
olhei diretamente em seus olhos.
“Nós vamos dar um jeito. Não precisa
se preocupar com isso agora. Pode ter sido apenas uma ameaça sem fundamento.”
“Talvez...”
Precisava fazer com que aquele ar
sombrio em sua face desaparecesse.
“Precisamos ter fé. De qualquer
forma agora todos estão em segurança. Estamos juntos.”
Enquanto pronunciava aquelas
palavras percebi que queria desesperadamente acreditar nelas. Não sabia qual
seria nosso futuro, mas desejava profundamente que fôssemos fortes e espertos o
suficiente para frustrar os planos de Rômulo sem detonar uma guerra.
De qualquer forma, independente do
que nos aconteceria, estava com Alexander agora e isso era tudo que importava.
Aproximei-me e encostei meus lábios
aos seus. O beijo teve um início suave, mas logo fogo começou a queimar entre
nós. De repente só havia eu e Alex no mundo, depois me preocuparia com que
estava por vir...
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